Título: Situação é "extremamente delicada", diz Carneiro da Cunha
Autor: Vanessa Adachi e Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 19/10/2005, Empresas &, p. B3
A Varig chegou a um momento de "inadiável definição" e a situação é "extremamente delicada", segundo Omar Carneiro da Cunha, presidente do conselho da Varig, em texto enviado ontem ao Valor. Hoje, em reunião com credores, no Rio, a administração da empresa tenta aprovar o plano de salvamento da companhia aérea. O texto enviado por Carneiro da Cunha é o seguinte: "Após tentativa infrutífera de tomar qualquer decisão sobre os caminhos necessários para a recuperação da Varig em assembléia geral dos credores realizada na semana passada, a empresa chega, agora, a um momento de inadiável definição. Em segunda convocação, marcada para hoje, a assembléia terá que decidir, com qualquer quórum, o que fazer para manter em operação uma companhia que é responsável por 11 mil empregos diretos e cerca de 180 mil indiretos. Mesmo com todas as dificuldades, responde, ainda, pelo transporte de 740 mil passageiros/ano no mercado interno (dados de setembro) e domina mais de 70% do mercado externo. "A situação é extremamente delicada. Tanto que está em processo de recuperação e pagando o preço de ser a primeira grande companhia nacional a enfrentar, na prática, a nova Lei de Falências e Recuperação de Empresas. No momento em que administradores empenhados em saneá-la apresentam um profundo trabalho com mais de 100 propostas de redução de custo e outras 30 de aumento de receita, já aprovada pela Fundação Rubem Berta, detentora da maioria do capital, outras propostas surgem aqui e acolá como milagrosas tábuas de salvação. A realidade, no entanto, é que não há saída sem perseverança, dedicação e profissionalismo. "Não se trata de legislar em causa própria, mas o fato é que a única proposta realmente consistente é a dos administradores da Varig, calcada em duas ações. Uma de curto prazo, quando há a necessidade de gerar recursos da ordem de R$ 100 milhões para fazer a empresa continuar a funcionar, e outra de médio/longo prazo quando, resolvida a questão do curto prazo, vai-se procurar investidores capazes de aportar investimentos suficientes para que a companhia, pioneira em seu ramo de atividade e símbolo de integração do Brasil, tanto dentro quanto fora de nossas fronteiras, volte a operar em sua plenitude. Diversos grupos financeiros e do setor já manifestaram interesse em participar desta segunda fase da reestruturação. "A proposta prevê acesso a fontes de liquidez que garantam estes recursos imediatos. Com isso, serão evitadas medidas drásticas por parte dos credores, como arrestos de aeronaves, o que já pode começar a ocorrer a curto prazo se não houver uma garantia muito forte de que haverá como cumprir acordos já realizados. "Além disso, a Varig ganhará algum fôlego que pode permitir que 16 aeronaves, no momento no solo por falta de recursos para manutenção, voltem a operar normalmente aumentando a oferta de assentos e, por conseqüência, gerando mais caixa para a companhia. A solução encontrada pelos administradores foi a venda da Variglog, o que garantiria este fôlego. No entanto, não há intransigência. Qualquer outra solução que contemple estes recursos será bem aceita. Mas, infelizmente, as demais propostas apresentadas não mostram claramente como resolver esta questão. O governo, por sua vez, sinalizou que gostaria de um prazo um pouco maior para apresentar nova proposta. É bom que se esclareça que qualquer iniciativa viável será sempre muito bem-vinda. "Obtido sucesso nesta primeira parte do plano, os administradores da Varig prevêem a implementação de medidas operacionais para garantir a melhoria dos resultados; um encontro de contas com credores para permitir uma redução negociada da dívida; e, finalmente, novos investimentos da ordem de R$ 300 milhões a 400 milhões. A forma que os administradores encontraram de criar um ambiente de segurança para os novos investidores é a transferência de parte das operações para uma nova companhia, eliminado desta maneira os riscos de sucessão que tornariam inviável o interesse de qualquer pretendente. Concomitantemente, as atuais companhias reteriam parte das operações, outros ativos e os passivos, contingências tributárias e previdenciárias. "Mas a luta dos administradores, que seria titânica só frente aos desafios existentes, é agravada por propostas alternativas inexeqüíveis. Os Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), um dos representantes dos funcionários, por exemplo, critica a redução de postos de trabalho proposta (cerca de 13% das vagas. Ou seja, garantia de emprego para 87% dos trabalhadores). No entanto, estudada com atenção, a própria proposta dos trabalhadores recomenda uma 'estrutura baixa e horizontal, enxugamento do organograma, redução de postos de trabalho para o mínimo legalmente exigido'. Em outras palavras: demissões. "O TGV argumenta que os administradores pretendem 'deixar para trás' as principais dívidas da Varig, o que inviabilizaria os pagamentos do fundo de pensão Aerus, propondo que a nova companhia os garanta. Na realidade, não há intenção de 'deixar para trás' coisa alguma, já que a Varig atual terá ativos valiosos que garantem a dívida. Poderão, ainda, ter garantias limitadas na nova empresa. "O TGV ainda acusa os administradores de reservar as ações da nova companhia para investidores desconhecidos. Na realidade, desconhecidos são os investidores do plano apresentado pelo TGV, gerando, inclusive, dúvidas sobre sua existência. Além do mais, a venda será judicial e haverá uma pré-qualificação, garantindo que sejam todos previamente conhecidos. Os trabalhadores chegam a fazer comentários que beiram o insulto ao afirmar que a venda de ativos tem por objetivo aumentar o ganho de quem agenciá-las. O plano da administração não contempla venda de ativos da nova companhia. "Outra proposta apresentada, pela Docas S.A., do empresário Nelson Tanure, prevê a criação da Varig Comercial, que seria responsável por toda a rotina comercial. A reestruturação ficaria com a atual Varig S.A. Esta forma não oferece ambiente de segurança necessário a novos investidores. Outra idéia da Docas é promover a conversão de dívidas em ações da companhia, o que não cria dinheiro novo, essencial nesse momento, além de não garantir prazo para as mudanças (fala apenas que seriam 'nos próximos cinco anos'). A proposta apresentada pela Docas à Justiça, aliás, utiliza, em grande parte, a da atual administração, observando-se, inclusive, alguns descuidos de digitação. Esses poucos pontos pinçados são suficientes para demonstrar, claramente, que estas sugestões foram feitas sem o cuidado e a seriedade necessários para garantir os recursos imprescindíveis para a reestruturação da Varig. Somente a proposta dos administradores atuais tem condições, mediante muito esforço, de modificar a atual situação - dramática - e permitir que seus 78 anos de história, em que transportou mais de 210 milhões passageiros em 2,5 milhões de vôos, percorrendo distância correspondente a 115 mil voltas em redor da terra, não se percam. É necessário manter os valores de desenvolvimento econômico, geração de emprego e riqueza e propagação de imagem positiva de um país moderno e empreendedor que a Varig sempre propagou.