Título: Retração deixaria Palocci sob pressão petista, diz Mendonça de Barros
Autor: Cynthia Malta
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2004, Política, p. A-7
A economia mundial, que neste ano deve crescer quase 5% e ajuda a puxar a expansão do PIB brasileiro, pode complicar nos próximos dois anos a condução da política econômica do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. A avaliação é do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. "Existe um grande risco, que não se sabe se virá antes ou depois de 2006, de haver um crise internacional decorrente de um ajuste a ser feito pelos Estados Unidos", disse o economista, ao participar do encerramento do 28º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) Ele explicou, a uma platéia de sociólogos e cientistas políticos, que o Brasil vive neste ano um "cenário artificial", no qual as exportações brasileiras cresceram bastante, o juro internacional esteve em patamar baixo e a dívida externa brasileira até encolheu. Esse quadro, um tanto róseo, pode mudar. Os EUA, observou, estão carregando um déficit em conta corrente de 6,5% do PIB. "É extraordinariamente alto e a China, o Japão e outras economias asiáticas, que exportam para os Estados Unidos, estão sustentando esse desequilíbrio". A "ciranda financeira" ocorre pois os dólares recebidos pelos exportadores são usados para comprar títulos do Tesouro americano, financiando assim os gastos além da conta. Com a vitória do presidente George W. Bush, para cumprir um segundo mandato na Casa Branca, a possibilidade de um ajuste fiscal mais forte, com impacto recessivo na maior economia do planeta, diminuiu. Mas os analistas ainda trabalham com a promessa republicana de que Bush cortará o déficit orçamentário pela metade em quatro anos - a mesma feita pelo candidato democrata derrotado John Kerry. Foto: Nelson Perez/Valor
Mendonça de Barros: "O ajuste a ser feito pelos EUA pode trazer crise"
A Merrill Lynch, a maior corretora de valores do mundo, distribuiu um relatório na última quarta-feira no qual manteve a sua projeção de aumento do PIB americano de 3% em 2005, com desaceleração em relação à expansão de 4,3% para este ano. David Rosenberg, economista especializado em América do Norte da Merrill Lynch, lembrou os clientes de que Bush teve tremenda flexibilidade fiscal em 2000, quando herdou (de Bill Clinton) um superávit orçamentário de US$ 200 bilhões. Por isso, teve espaço para "gastar" mais. O déficit hoje é de US$ 415 bilhões. Por isso, o espaço para estimular a economia é bem menor para Bush. A maior parte dos analistas nos EUA também prevê aumento gradual nos juros básicos americanos - dos atuais 1,75% para cerca de 2,75% em junho de 2005. O juro mais alto somado a um cenário de petróleo mais caro e a delicada situação na área fiscal funcionam como uma "tampa", que não deixa a economia americana crescer mais, observou Rosenberg. A economia da China, considerada uma alavanca importante do crescimento da economia mundial, também pode começar a desacelerar. Um sinal de que o governo de Pequim estaria pondo, de fato, o pé no freio foi o aumento do juro anunciado na semana passada - a primeira alta em nove anos. Esse cenário, de um mundo que cresce menos, também é previsto pelo FMI (ver tabela) e por analistas no Brasil. O economista e professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo é um deles. "O mais grave, agora, por incrível que pareça, seria os Estados Unidos tentarem reduzir o déficit externo deles. Porque na hora que eles fizessem isso, levariam a débâcle o resto da economia internacional. A não ser que você tivesse a Europa e o Japão subsituindo os Estados Unidos, sustentando a demanda internacional, mas não está com cara de que isso vá acontecer", disse Belluzzo ao Valor. Uma retração mais séria nos EUA tem, segundo Mendonça de Barros, de 10% a 15% de chance de ocorrer. "Se vier antes de 2006, será formada uma forte corrente anti-Palocci." O ex-ministro observou que "os agentes políticos agem muito no curto prazo: se está dando certo ou errado" e essa postura "pode ser uma armadilha para o futuro". Mendonça de Barros enxerga a armadilha no fato de o governo Lula, segundo ele, ter adotado e aprofundado a política econômica da era FHC sem aplicar "políticas para minimizar os problemas" decorrentes da integração do Brasil à economia global. "Agora é a hora do PT discutir qual é a sua política. A do Palocci, num momento de crise, não é a política do Lula. E quando não criar os resultados que vêm sendo criados, vai gerar uma crise no partido", disse o economista. Mendonça de Barros não fez projeções sobre o resultado da eleição presidencial de 2006, mas observou que se Lula mantiver a atual política e for reeleito estará sendo iniciado o quarto mandado de FHC. O sociólogo e professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro Luiz Jorge Werneck Vianna, ao lado de Mendonça de Barros, não se conteve. "Aí! Serginho estava certo", disse, arrancando risadas da platéia, ao referir-se a Sérgio Motta, ministro do governo FHC. Motta, morto em 1998, havia previsto que os tucanos, empossados no Planalto em 1994, ficariam 20 anos no poder. Werneck Vianna, sociólogo de esquerda, mas insatisfeito com o governo Lula, e o tucano Mendonça de Barros concordam que as eleições presidenciais de 2006 devem colocar, de um lado Lula, e de outro o PSDB, com o governador de Sâo Paulo, Geraldo Alckmin, no posto de candidato. E a vitória de José Serra, na disputa da Prefeitura de São Paulo, reforça esse quadro, dado como certo por grande parte dos participantes do encontro da Anpocs.