Título: Governo volta a discutir construção de Angra 3
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2005, Brasil, p. A5

Infra-estrutura Debate será retomado na próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética

A possível retomada da construção da usina nuclear de Angra 3 será um dos principais temas da próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética, dentro de duas semanas. Interessados na construção e funcionamento da usina estão otimistas, mas técnicos do governo envolvidos na discussão informam que permanece o principal obstáculo à tomada de decisão nesse tema: o custo da obra e seu eventual repasse ao consumidor de energia elétrica. Apontado, no passado, como um dos principais opositores à retomada de Angra 3, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, é lacônico ao falar do assunto: "Não sou contra a energia nuclear, desde que o preço seja competitivo", disse, ao Valor, após uma audiência no Congresso. Em palestra a integrantes da Sociedade Brasileira para o progresso da Ciência (SBPC), na sexta-feira, o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Gonçalves, mostrou-se mais confiante de que o ministério, em breve, daria sinal verde para a retomada de Angra 3. "Estou otimista com as perspectivas, mas não posso falar pelo ministério", esclareceu Gonçalves. Ele coordenou a comissão criada por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para definir o futuro do programa nuclear brasileiro. Foram estabelecidos três cenários, todos com a inclusão de Angra 3, que, interrompida na década de 80, já consumiu investimentos de US$ 700 milhões pelo Brasil. "Angra 3 é a partida, já se tem tudo pronto", comentou o presidente da CNEN. O cenário mais provável, a ser analisado na reunião do CNPE, prevê a construção, até 2008, de duas usinas pequenas, além da terceira de Angra, que, sozinha, tem um custo estimado de US$ 1,8 bilhão. Essa primeira fase custaria US$ 3,8 bilhões. Completo, com mais duas usinas pequenas e três grandes, o programa nuclear consumiria US$ 13 bilhões nos próximos 18 anos, com aplicações nas áreas médica, científica e industrial, além de viabilizar economicamente a exploração do urânio enriquecido do país. Um dos principais interessados na retomada é a empresa que vendeu os equipamentos para Angra 3 e negocia com o governo as condições de retomada do investimento, a Framatome, antiga Siemens, hoje braço nuclear da gigante francesa Areva e responsável pela manutenção de Angra 2. "Já temos um contrato de construção de Angra 3, desde a década de 70", lembra o responsável pela Framatome no Brasil, Johannes Hoebart, que anuncia haver interesse de bancos alemães e do Societé Générale, francês, em financiar a obra, desde que haja garantias. "A Areva dará apoio ao Brasil para obter garantia aos empréstimos, com os governos alemão e francês", afirma ele, já contando com uma maior simpatia pelo tema nuclear no recém-eleito governo democrata-cristão na Alemanha, onde, até recentemente, o Partido Verde bloqueava o apoio a projetos nucleares. No governo, há sinais de que avança o apoio à opção nuclear, como pareceu indicar a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, ao nomear, em setembro, para a presidência da Eletronuclear, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, o principal nome do programa nuclear brasileiro na década de 80, um entusiasta do programa, vinculado ao desenvolvimento das ultra-centrífugas brasileiras (e, também, ao polêmico programa nuclear paralelo, encerrado no governo Collor). Mas além da resistência política, no PT, há um argumento técnico, contrário à alternativa, que impede a decolagem do programa. Os técnicos calculam que o preço da energia gerada por Angra 3 se situaria entre R$ 170 a R$ 200 o MWh, bem acima dos R$ 90,00 das usinas atuais, segundo os últimos leilões de energia. A incorporação de Angra 3, uma estatal, à matriz energética significaria distribuir o custo excedente entre os consumidores de energia, como se faz com Itaipu. Ou, como chegou a propor o Ministério de Minas e Energia, fazer com que a Secretaria do Tesouro Nacional assumisse o custo excedente, sob a justificativa da importância da usina para a política nuclear do governo. Não houve decisão sobre esse dilema até agora, no governo e não há indicações de que essa definição ocorra na reunião do CNPE, nas próximas semanas. O debate deve ser recheado, ainda, pela discussão sobre qual opção gera maiores custos ecológicos, se a nuclear ou a das médias e grandes hidrelétricas, como Belo Monte, que provocam fortes alterações na situação hidrográfica onde são construídas. Segundo especialistas que acompanham o assunto no governo, poderão contribuir para tornar atrativa a opção nuclear o atraso na execução dos planos de construção de nova usinas hidrelétricas e o aumento do custo da energia cujo fornecimento será oferecido em leilão, em dezembro. É nesse contexto que pode ser entendida a declaração de Silas Rondeau, de que o ministério avalia apenas o preço, ao analisar a conveniência da retomada de Angra 3. Assessores do ministro acrescentam que a renegociação dos contratos de Angra 3, entre o governo e a Areva, também terão peso na tomada de decisão.