Título: Decisão de socorrer a companhia foi de Lula
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2005, Especial, p. A14
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter dado recomendações à sua equipe para a necessidade de obedecer "critérios técnicos" em uma intervenção do governo na salvação da Varig, prevaleceu a posição defendida pelo ministro da Defesa, José Alencar. O plano apresentado pelo BNDES foi uma decisão política de Lula, tomada na manhã de ontem, quando recebeu Alencar, assim que desembarcou em Brasília, voltando de Moscou. Alencar já havia afirmado que a crise da Varig seria o primeiro assunto que levaria a Lula. A urgência em um posicionamento do governo era evidente porque a assembléia dos credores seria iniciada em poucas horas, no Rio. Portanto, sem poder adiar sua decisão, Lula ouviu os argumentos de Alencar. Na última hora, a "solução de mercado" defendida pelo Ministério da Fazenda e, até mesmo, posições técnicas contrárias dentro do BNDES, foram derrotadas. Na manhã de terça-feira, Alencar conduziu uma reunião entre as empresas públicas federais credoras da Varig: Infraero, Banco do Brasil e BR Distribuidora. Também participou o ministro da Fazenda em exercício, Murilo Portugal. Os argumentos da equipe econômica continuavam fortes. O primeiro deles era a falta de garantias para o retorno de um possível investimento de recursos públicos na Varig. O segundo era uma conseqüência do primeiro: uma reabertura do "Hospital BNDES" já teria na fila a Vasp e a Transbrasil. Alencar deixou a reunião afirmando que o apoio do governo à Varig dependia de "garantias absolutas". O ministro saiu às 13h30 de terça-feira do Palácio do Planalto para cumprir sua agenda: almoço com a direção do Banco do Brasil. Alencar negou que a Varig fizesse parte do cardápio, mas fontes do governo confirmaram que a busca de uma solução para a empresa aérea, com a ajuda do Banco do Brasil, foi o único tema do encontro. Alencar saiu do almoço sem uma resposta definitiva do Banco do Brasil. O objetivo era fazer com que o banco fosse mais tolerante com os recebíveis das administradoras de cartões de crédito. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, não se opôs à possibilidade de o BNDES dar suporte financeiro à Varig. Para ele, a solução não significa a estatização da empresa. "Não vamos, evidentemente, ter alguma solução que signifique colocar dinheiro público sem garantia de controle. Se forem dadas garantias, se houver um processo transparente e for bom para os dois lados, não vejo problema", explicou. Fora do governo, os representantes dos trabalhadores festejaram a proposta do BNDES. A presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Graziela Baggio, afirmou que o plano evita que os melhores ativos do grupo Varig - Varig Log e VEM - sejam vendidos em momento desfavorável. A sindicalista garante que os trabalhadores vão continuar apoiando propostas que preservem seus empregos e descartem a venda ou o fatiamento da Varig. "Há duas semanas fui recebida pelo presidente Lula no Palácio do Planalto. Ele mostrou empenho em resolver essa crise e sabia que a Justiça americana ameaçava com a retomada de 15 aeronaves. Ele cumpriu sua palavra quando prometeu que não deixaria a Varig quebrar", relatou Graziela. No Congresso, a deputada federal Yeda Crusius (PSDB-RS) também comemorou a entrada do BNDES na salvação da Varig. Ela integra o Grupo Parlamentar em Defesa da Varig e atribui ao ministro da Defesa a boa opção do governo.