Título: Ajuda abre caminho para entrada de investidores, diz Carneiro da Cunha
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2005, Especial, p. A14

A entrada do governo por meio do BNDES na operação de salvamento da Varig abre caminho para novos grupos de investidores participarem do processo de reestruturação da companhia, disse ao Valor o presidente da empresa, Omar Carneiro da Cunha. "Já tivemos algumas manifestações de companhias áreas internacionais que querem participar. A TAP é uma delas e existem outras. Não há nenhuma assinatura, mas há manifestações claras de interesse." Segundo o executivo, o fato de a Varig fazer parte da Star Alliance, associação internacional de empresas aéreas, também favorece a abertura do leque para novos investidores. E explicou que a administração da Varig tem mantido "conversas intensas" com os membros da associação. "Diversas empresas da Star Alliance já participaram da recuperação de outras companhias aéreas. A Lufthansa e a United, por exemplo, uniram-se quando a Air Canada enfrentou problemas no passado. E a canadense, que saiu do Capítulo 11 [recuperação judicial], ajudou na recuperação da US Air", informou. "O fundo MatlinPatterson fez uma proposta de compra da VarigLog, mas também sempre manifestou interesse público de participar da reestruturação. Existem outros grupos nacionais No passado havia a família Efromovich [do empresário German Efromovich]. O [empresário Nelson] Tanure diz que está disposto. Não sei se vai ou não participar, mas agora abre um novo caminho para outros grupos participarem", disse. Carneiro da Cunha contou que a entrada do governo brasileiro na operação de apoio à Varig intensificou-se na sexta-feira. A proposta foi fechada em reunião no BNDES na terça à noite e, ontem, pouco antes da assembléia, que começou às 9h no Rio, o apoio foi sacramentado pelo presidente Lula, assim que chegou da viagem à Rússia. "Agora vamos trabalhar junto com o BNDES para viabilizar essa solução", disse. A Varig teria que pagar hoje US$ 62 milhões referentes à divida com empresas de leasing de aviões. Mas Cunha admite que não irá fazê-lo hoje. A expectativa, segundo ele, é conseguir empréstimo-ponte com apoio do BNDES. Hoje à tarde haverá uma reunião no banco com os representantes das empresas de leasing. Ele disse, também, que está solicitando ao Judiciário suporte da decisão tomada ontem, na assembléia, com relação ao apoio do BNDES para haver comunicação imediata à corte americana. Avaliou que agora existe um fato concreto para subsidiar a análise do juiz em Nova York para evitar que sejam arrestados 20 aviões. "A demonstração de uma entidade do peso do BNDES de entrar no processo de recuperação sinaliza que esse dinheiro será disponibilizado em prazo muito curto. O que esperamos é levantar o recurso enquanto é montada a Sociedade de Propósito Específico (SPE) sugerida pelo banco num processo que o BNDES é que irá comandar", disse. O modelo que está sendo montado prevê a criação de uma SPE que viria a adquirir as ações do capital da VarigLog e da VEM, em duas etapas, uma de curto outra de médio prazo. Na nota divulgada ontem pelo banco está dito que o BNDES pode vir a participar do capital da Varig. "Os controladores da SPE, caso resolvam ficar, vão poder integrar o quadro societário da Varig. Mas se o BNDES vai ficar ou não no capital da SPE no fim do processo é uma discussão que só o governo pode ter. A idéia é criar a SPE, atrair investidores e futuramente realizar a fusão das duas empresas de volta na Varig", diz. O apoio do governo responde a interpretação de alguns de que a administração da companhia é um ninho de tucanos e haveria reação do PT a isso : "Eu nem sei onde é a sede do PSDB. Somos todos profissionais, sem ligação partidária, fazendo um trabalho claro. Tivemos uma moção elogiando a forma como vem conduzindo o processo. Tudo que fazemos aqui está no site da empresa. As decisões são tomadas por unanimidade, mas obviamente a administração está sendo diferente do que foi no passado. Todos nós temos nossas próprias atividades. Eu, o David Zylbersztajn [presidente da ANP no governo Fernando Henrique Cardoso], Eleazar de Carvalho [presidente do BNDES no antigo governo], o embaixador [Marcos Azambuja, que também é próximo a FHC]. Viemos para ajudar, não somos parte do problema, somos da solução", afirmou. O que preocupa Carneiro da Cunha é o que chama de "briga intestina" entre sindicatos, facções de empregados que podem prejudicar a companhia. Mesmo assim, avalia que haverá um consenso, pois as disputas não têm nada a ver com os funcionários da Varig: "A briga é por poder. Os funcionários da casa, pilotos, comissários, atendentes, mecânicos são de dedicação extraordinária. Eles é que estão salvando e mantendo essa companhia com todas essas as dificuldades gigantescas", afirmou.