Título: Governo federal apóia plano e pode mudar o destino da Varig
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2005, Especial, p. A14
Aviação Proposta do BNDES oferece uma combinação de crédito de curto e longo prazos
A entrada do governo federal, via BNDES, no processo de recuperação judicial da Varig pode representar uma virada num momento crítico do processo de salvamento da Varig. Até agora, o consenso entre as diversas classes de credores e a administração da companhia parecia quase impossível de se alcançar, principalmente dentro do exíguo prazo legal. Tendo em vista as reações iniciais, baseadas por enquanto em um rascunho de proposta, o BNDES poderá ser o fator que faltava para aglutinar os interesses. Por outro lado, se até isso falhar, a esta altura ficará mais difícil costurar uma alternativa. Em princípio, a Varig tem até o fim de dezembro para aprovar um plano integral de recuperação junto a seus credores. A proposta apresentada ontem pelo banco oficial na assembléia de credores oferece uma combinação de capitalização de curto prazo para a companhia e financiamento de longo prazo para investidores interessados nas subsidiárias de carga e manutenção, VarigLog e VEM . A assembléia de ontem será retomada no próximo dia 26. "A entrada do BNDES foi fundamental para que se possa atrair um investidor de peso para a Varig", disse Odilon Junqueira, que dirige o fundo de pensão Aerus, o mais credor individual da Varig. Para ele, a proposta do BNDES facilmente obterá a aprovação da maioria dos credores. Boa parte das atenções volta-se agora para a reação que terão os arrendadores estrangeiros, que andam em pé de guerra com a Varig para retomar suas aeronaves. Um advogado que representa algumas empresas de leasing credoras da Varig qualificou a entrada do BNDES no processo de "uma luz no fim do túnel". Para ele, "a possibilidade de uma instituição como o BNDES emprestar dinheiro já e dar maior transparência ao processo é positiva". Mas, ressalvou ele, por enquanto o que há é apenas uma "carta de intenções". As empresas de leasing gostaram em princípio, mas querem mais substância. Hoje, Varig e BNDES reúnem-se com elas no Rio de Janeiro para dar mais detalhes da proposta e convencer da sua viabilidade. O desgaste com os arrendadores está muito grande. "Aos olhos dos credores externos, a Justiça brasileira tem sido extremamente parcial em suas decisões, a favor da Varig", disse o advogado. O financiamento do BNDES teve que ser costurado às pressas já que vence hoje o prazo dado pela Justiça americana para que seja paga a dívida acumulada pela Varig junto aos arrendadores desde junho e que chega a US$ 62 milhões. Além disso, uma das exigências do juiz Robert Drain, do Tribunal de Falências do Distrito Sul de Nova York, para manter a proteção contra arrestos até o fim de dezembro, era que houvesse uma proposta firme de capitalização da empresa. A única que a administração da companhia tinha a oferecer até agora era a do fundo MatlinPatterson para adquirir a VarigLog. No entanto, essa proposta havia vencido em 22 de setembro e já chegava a 50 o número de aeronaves que tiveram pedido de retomada na Justiça brasileira e também na americana desde então, diante da ausência da tal proposta firme. Por essa razão, a Varig pagou US$ 2,5 milhões para ter a carta de intenções do fundo renovada por 30 dias, ou seja, até o próximo fim de semana. Foi a forma encontrada para evitar um "vácuo" de proposta firme, que poderia levar à retomada dos aviões. Agora com a entrada do BNDES em cena, essa questão se resolve. O fundo MatlinPatterson, no entanto, mantém seu interesse pela Varig como um todo, segundo uma fonte. Mas isso agora terá que ser discutido também com o BNDES. Embora o prazo dado pela Justiça americana para pagamento dos aluguéis em atraso vença hoje, a nova audiência na corte nova-iorquina está marcada apenas para a próxima segunda-feira, dia 24. "Com esse financiamento do BNDES, a companhia fica líquida e, com a proposta firme, devemos conseguir manter a proteção contra arrestos dada pela Justiça americana", disse Daltro Borges, advogado da Varig.