Título: Indústria quer padrão digital antes da Copa
Autor: Claudia Facchini
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2005, Empresas &, p. B1

TV

Há uma torcida cada vez maior para que o governo escolha o padrão que será utilizado nas transmissões de TV digital antes da Copa do Mundo, evitando assim que o Brasil passe o vexame de não participar do primeiro campeonato digital da história. Entre as indústrias de eletrônicos, existe uma forte expectativa de que a definição saia, no máximo, até fevereiro de 2006. A próxima Copa será a primeira 100% transmitida em alta definição ou em HD (de "high definition"), no jargão do setor. Assim como ocorreu com a Copa de 70, quando foi feita a primeira transmissão em cores no Brasil, o Mundial de 2006 marcará o fim da era analógica e o início da fase digital na indústria da televisão. Americanos, europeus e asiáticos irão assistir os jogos em HD, mas a maior parte dos brasileiros provavelmente não. Sem a definição do padrão, os consumidores não conseguem assistir a transmissões digitais nem mesmo nos novos e caros TVs de LCD e de plasma que estão sendo fabricados no Brasil pelas principais marcas, como Sony, Philips, Panasonic, Samsung e LG. Obviamente, esses aparelhos estão preparados para a TV digital. Os consumidores precisão comprar, no futuro, um decodificador ou "set top box" adaptado ao padrão que for escolhido pelo Brasil. Após a definição do modelo, as TVs sairão prontas das fábricas, com os decodificadores incorporados. A indefinição é uma pedra no sapato da indústria, que prepara-se para o Natal da TV de tela fina neste ano. Sem a escolha do padrão, no entanto, os consumidores também tendem a adiar a compra dos aparelhos. A escolha de um dos três padrões de transmissão digital utilizados no mundo - europeu, americano e japonês - foi protelada pelo governo anterior e também vem sendo adiada na gestão atual. Além de aspectos meramente técnicos, a decisão tem implicações políticas e comerciais, como a cobrança de royalties. Com um consumo estimado em quase 9 milhões de TVs neste ano, o mercado brasileiro está entre os maiores do mundo, assemelhando-se ao japonês. Isto explica o grande interesse e o forte lobby de cada um dos padrões. O atraso na decisão, porém, chegou a seu ponto máximo, acreditam os profissionais do setor. Segundo José Fuentes, vice-presidente da divisão de eletrônicos de consumo da Philips, espera-se que haja um empenho do governo para definir o padrão até fevereiro. "Será um prazo apertado até a Copa do Mundo, que começa em junho", diz o executivo. O setor terá pouco tempo ficar preparado, mas a empresa deve pisar no acelerador para não perder a oportunidade da TV digital. Para as indústrias, o padrão escolhido não fará muita diferença já que, no mundo, elas fabricam televisores nos três modelos. "Estamos preparados para a TV digital", afirma Fuentes. Segundo ele, com a escolha do padrão pelo governo, a Philips poderá trazer para o Brasil decodificadores importados, que a marca já vende no exterior. A empresa também está em negociações com a Sky, operadora de TV via satélite, para a realização de testes com o modelo que for definido pelo governo. "Todas as redes de TV brasileiras estão capacitadas, hoje, para produzir conteúdo digital. Elas já vêm comprando equipamentos nos últimos três anos", afirma Minoru Itaya, presidente da Sony no Brasil. A marca japonesa é líder em filmadoras e equipamentos de produção para emissoras de TVs, com cerca de 75% de participação de mercado no país. A escolha do padrão marcará o início da TV digital, mas sua decolagem demandará tempo. No Japão, a Sony lançou uma nova tecnologia de armazenagem digital, o Blu-Ray, cujos DVDs têm muito mais espaço para guardar imagens em alta definição transmitidas pela TV. Itaya, porém, diz que nem começou a pensar no Blu-Ray.