Título: Assustada com a violência, periferia de SP diz 'sim'
Autor: Zínia Baeta
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2005, Política, p. A10
Ao terminar a missa da manhã de ontem no Jardim Ângela, aquele que já foi o local mais violento do planeta, o irlandês Jaime Crowe, evocou Deus para a sua campanha pela proibição da venda de armas: "Senhor, ajude o nosso povo a votar sim". Por via das dúvidas, o sacerdote convocou os fiéis para a caminhada pela paz, no dia de Finados, uma espécie de romaria anual que há uma década reúne os moradores da região até o cemitério São Luiz, onde jaz a maior parte das vítimas da violência. "A vitória do não significa que a cultura da violência nesse país vai continuar prevalecendo, o que é uma indicação para que continuemos a combatê-la", disse, depois de encerrar a missa na Paróquia Santos Mártires, erguida entre os morros do Jardim Ângela, um aglomerado de bairros com cerca de 300 mil habitantes na zona Sul de São Paulo. Há 36 anos no Brasil e há 18 no Jardim Ângela, padre Jaime é testemunha de que o "sim" que boa parte da população da região escolheu ontem vem da relação que a periferia tem com as armas. Para esses eleitores, quanto menos munição menor o risco do marido bêbado pegar na arma ou de a briga no boteco terminar em tiroteio. O padre parece ter razão. Entre os eleitores do Jardim Ângela, não é raro encontrar quem perdeu parentes, vizinhos e amigos vítimas das balas. É por isso que ali as explicações para o "sim" tinham muito mais força que o contrário. Não há muitos argumentos contrários que convençam Francisca Alves, a mãe que, mesmo sem forças para caminhar, foi votar "sim", em lágrimas, em memória do filho de 14 anos. O jovem teria sido baleado ao ser confundido com um bandido, segundo a irmã. "Hoje em dia os nervos estão à flor da pele", justificou Tereza Barbosa, que também votou a favor da proibição e que já perdeu a conta dos conhecidos que morreram assassinados. Perto dela, também votou sim uma mulher que decidiu se mudar do Jardim Ângela para Sorocaba para tentar escapar da violência. Mas há quem também quis o "não" no Jardim Ângela, como Diná Coutinho, que sonha em ter uma arma "para se defender dos bandidos", ou Marcos Pinheiro de Souza, que decidiu o voto na campanha de televisão. A violência parece estar na história de cada morador do Jardim Ângela. Mas o bairro não é mais o mesmo. Padre Jaime é dos principais responsáveis pela transformação da região num laboratório de combate aos homicídios. O bairro mais violento do mundo, segundo relatório de 1995 da Organização das Nações Unidas (ONU), deixou de parecer o inferno. Está ainda longe de ser o paraíso. Mas os números indicam que o modelo adotado ali funciona. Em 1996, lembra padre Jaime, foram 120 homicídios por 100 mil habitantes, quase três vezes mais que o dobro da média da cidade de São Paulo no mesmo ano. Desde 2001, o índice vem caindo. No primeiro semestre deste ano, a região passou 52 dias sem um único homicídio. Neste mês, o Jardim Ângela estava próximo de chegar ao recorde de 90 dias sem assassinatos não fosse, lamenta o sargento Creomar de Souza, da Polícia Militar, uma morte na semana passada. Não há milagre na fórmula. Trata-se apenas de uma bem amarrada sinergia entre poder público, religiosos e uma legião de voluntários. Tudo começou em 1997. A partir de encontros na paróquia dos Mártires surgiu o Fórum de Defesa da Vida. O movimento é formado por uma série de projetos. Um deles, a Unidade Comunitária de Álcool e Drogas, recupera dependentes químicos, principalmente alcoólatras. Há ainda projetos de formação de adolescentes e de atendimento de mulheres vítimas da violência doméstica. Nesse tempo, a Polícia no Jardim Ângela mudou. "Antes a população só via carros de polícia velozes", diz padre Jaime. "Eles tinham de atender a uma área muito maior", justifica o sargento Souza. O efetivo ganhou reforço e foram criadas bases comunitárias, com policiais que mais atuam na ação preventiva.