Título: Zona eleitoral da elite alega defesa de direito em voto 'não'
Autor: Zínia Baeta
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2005, Política, p. A10
Dizer não à proibição do comércio de armas e munição foi a escolha de grande parte dos eleitores que votou no Colégio Madre Alix, no Jardim América, bairro de classe alta de São Paulo - a julgar pelas declarações dadas ao Valor. A maioria dos eleitores entrevistados justifica sua opção alegando que estaria abrindo mão de seus direitos. "Eu odeio armas, mas não quero que o governo diga o que eu tenho de fazer", diz o publicitário Claudio Dratwa, que foi votar acompanhado de seu cachorro Topek, da raça whippet. "Daqui a pouco vão nos proibir de andar de carro, porque eles causam congestionamento", afirma. "Eu não quero pagar pela ineficácia do governo".
Maria Alice Pereira: "Referendo para desviar atenção" O dia de eleição não atrapalhou a rotina de exercícios dos moradores da região. Grande parte dos eleitores que passou pelo Madre Alix conciliou a corrida ou caminhada matinal com a obrigação cívica. Muitos deles foram votar a pé usando roupas de ginástica, tênis e bonés (todos sofisticados, claro). Alguns levaram os filhos, outros, o cachorro - aproveitando que a chuva deu uma trégua perto da hora do almoço. Houve até quem comparecesse acompanhado pelo segurança. Afora esse detalhe, o clima era de um descontraído e inocente domingo no parque. Não houve filas nem confusão. O tempo entre encontrar a sessão e votar não ultrapassava os dez minutos. Até o final da manhã, o Tribunal Regional Eleitoral não registrou nenhum incidente grave. Apenas um eleitor chegou à zona alcoolizado. Segundo o TRE, quase 4 mil eleitores votam no Madre Alix, tradicional colégio de São Paulo. Não havia ninguém fazendo campanha de boca de urna e pouquíssimos eleitores se animaram a vestir camisetas declarando sua opção. A maioria preferiu a segurança de grifes famosas.
O empresário Roberto Dhelomme, o filho Roberto e o cachorro Beck: "Não são as armas que matam, são as pessoas" A administradora de empresas Maria Alice Pereira, que compareceu à zona pouco antes do almoço, afirmou estar "muito brava" por ter que votar no referendo. "Essa eleição agora só serve para desviar a atenção das pessoas do momento político que vivemos", diz a administradora, que votou pela não proibição dos comércio de armas e desconhece que o referendo está previsto desde a aprovação do Estatuto em 2003. Segundo Maria Alice, o Brasil é carente do básico e, por isso, o foco da discussão não deveria ser esse. "Essa eleição fere a Constituição." O empresário Roberto Dhelomme acredita que jamais usaria uma arma para se defender, em caso de assalto. Apesar disso, ele votou contra a proibição. "Adoraria ter votado a favor da proibição, mas não fiz isso porque não tenho garantia de que os criminosos serão desarmados", afirma o empresário. "Não são as armas que matam, mas as pessoas". A professora de inglês Adélia Villa foi votar acompanhada de sua mãe, a dona-de-casa Palmyra Villa, de 84 anos. "Eu faço questão de votar em todas as eleições", diz dona Palmyra, que declarou que seu voto seria "o mesmo que o da filha: não". "Eu não tenho arma porque nunca precisei, mas quem mora no campo, por exemplo, precisa delas", justifica a dona-de-casa. A filha Adélia diz que nunca viu uma arma na vida. "Sou contra me tirarem o direito de escolher", explica Adélia. "E se decidirem tirar outros direitos?". O professor de filosofia Rodrigo Rosas Fernandes, que votou pela proibição do comércio de armas, era uma voz dissonante no Madre Alix. "As armas foram feitas para matar", resume o professor. "Para ter mais segurança é preciso armar e treinar a polícia".