Título: Carência persiste nas fronteiras gaúchas
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2005, Agronegócios, p. B11
Crise sanitária Quatro anos após a última crise de aftosa, poucas mudanças ocorreram para o combate da doença
O provável avanço da aftosa para o Paraná levou o Rio Grande do Sul a fechar, na sexta-feira, as fronteiras para o ingresso de carnes e subprodutos de origem animal de todos os Estados brasileiros. Hoje o governo gaúcho deve definir durante quanto tempo manterá a medida em vigor, pois teme que a doença chegue a Santa Catarina, que não vacina o rebanho bovino, e encontre sinal aberto para se alastrar até o Estado. A preocupação não é à toa. Passados quatro anos da última crise de aftosa no Estado, em outubro de 2001, os pecuaristas vêem poucas mudanças práticas no controle da sanidade no Estado. Salvo o empenho individual de veterinários e técnicos, as inspetorias da Secretaria da Agricultura e as unidades da Superintendência Federal da Agricultura ainda se ressentem de problemas como falta de pessoal e até de computadores para facilitar sua tarefa. "A inspetoria veterinária ainda está desaparelhada", reclama o vice-presidente do Sindicato Rural de Santana do Livramento, Luiz Cláudio de Andrade. Segundo ele, os três veterinários da secretaria não dispõem de computador e são responsáveis pela fiscalização de 2,2 mil propriedades. A doença foi confirmada em maio de 2001, e, como a cidade faz parte da fronteira seca entre Brasil e Uruguai, enfrenta riscos maiores por conta de contrabando e furto de gado, explica Andrade. Conforme o presidente do Sindicato Rural de Alegrete, Oscar Parreira, só agora a inspetoria local está voltando a ser informatizada, depois que teve os computadores roubados, há um ano. Para ele, os veterinários que atuam no município são "competentes e integrados" com os produtores, mas a equipe é pequena (três pessoas) e tem poucos recursos para fiscalizar 2 mil propriedades com 645 mil bovinos. Em Jóia, onde o último foco foi em agosto de 2000, também ainda não há equipamentos de informática e um veterinário e dois auxiliares são encarregados de acompanhar 1,4 mil propriedades e 42 mil animais, segundo o presidente do sindicato local, Herve Lassen. A coordenadora da divisão de Fiscalização e Defesa Sanitária da Secretaria da Agricultura, Adriana Reckzigel, reconhece carências causadas por "dificuldades burocráticas" na liberação de recursos, mas diz que a situação melhorou. A questão mais urgente é completar a informatização das 241 inspetorias. Em agosto, a secretaria adquiriu 270 microcomputadores com impressoras, por R$ 1 milhão, mas inspetorias como as de Livramento e Jóia não receberam equipamentos. Alguns prédios foram arrombados e primeiro será preciso reforçar a segurança. A meta é informatizar e interligar 100% das unidades até 2006, inclusive com a implantação de um software de geoposicionamento por satélite que facilitará o acompanhamento de todo o rebanho gaúcho. A secretaria também abriu concurso para a contratação de mais 130 veterinários, que substituirão profissionais contratados emergencialmente durante o último surto e suprirão lacunas existentes hoje. Segundo Adriana, o Estado tem 170 especialistas, e alguns deles precisam atender a mais de uma inspetoria. A situação não é muito diferente na Superintendência Federal da Agricultura. Segundo o chefe do serviço de Sanidade Agropecuária, Bernardo Todeschini, seriam necessários pelo menos mais 20 veterinários, a maioria nas 19 unidades de vigilância sanitária nas fronteiras e no interior. Hoje são 24 profissionais, dos quais 5 operam em Porto Alegre, e o aumento do efetivo daria agilidade na cobertura da fiscalização. Segundo Todeschini, o contingente de veterinários da SFA é praticamente o mesmo da época do último surto. Três foram contratados no fim de 2001, depois de 25 anos sem concurso público, mas desde lá alguns se aposentaram. No período, o rebanho gaúcho de bovinos e de bubalinos cresceu de 12,9 milhões para 14,2 milhões de cabeças. Outro problema, comenta ele, é a falta de tempo para o treinamento sistemático das equipes para emergências. Além de Livramento, o surto de 2001 atingiu outras cidades do sul do Estado, como Alegrete, Dom Pedrito, Jari e Rio Grande. Na época, foram sacrificados mais de mil animais e outros 10 mil foram levados a abate sanitário (para desossa, maturação e venda no Estado), lembra Fernando Grossi, da divisão de fiscalização e defesa sanitária animal. O Rio Grande do Sul só recuperou o status de zona livre de aftosa com vacinação em outubro de 2002, um ano após a eliminação dos últimos focos. A condição havia sido perdida em 2000, no processo para o reconhecimento como área livre sem vacinação, por conta de outro surto na região de Jóia, que durou de agosto de 2000 a março de 2001 e exigiu o sacrifício de 11 mil animais. Nos dois episódios, os prejuízos com os embargos internacionais às exportações de carne bovina gaúcha chegaram a US$ 200 milhões, calcula o diretor executivo do Sicadergs (que reúne frigoríficos), José Alfredo Knorr. O valor corresponde a 1,5 vez os embarques totais de 2004. Com a carne suína, as perdas chegaram a US$ 80 milhões no surto de 2001-2002, estima o diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Estado (Sips), Rogério Kerber.