Título: Câmbio atinge equilíbrio em R$ 2,70 , diz economista
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 25/10/2005, Brasil, p. A2
A taxa de câmbio nominal não voltará ao patamar de R$ 3 ou R$ 3,5 por dólar e deverá encontrar um ponto de equilíbrio inferior, na faixa de R$ 2,70, prevê o diretor-geral da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Ricardo Markwald. Segundo ele, existem dados estruturais, como a composição da dívida interna e a redução do endividamento, que permitem supor que a taxa de câmbio não é mais a mesma, se comparada a passado recente. Markwald diz que a sobrevalorização do real preocupa, e é ruim por afetar setores como calçados, têxteis e autopeças, entre outros, que não são importadores e não se beneficiam do câmbio para comprar insumos no exterior. A apreciação do real também pode afetar decisões de investimento, sugere o economista. Ele defende, porém, que o momento é bom para retomar a agenda de reformas microeconômicas, que tem impacto na exportação. Fazem parte da agenda medidas para aumentar a competitividade das empresas, aumento da inovação e redução de custos de infra-estrutura. "Acho que o rumo para equilibrar o câmbio e aumentar as importações é dar condições para que mais empresas e setores sejam competitivos", avaliou Markwald. Classificou a volatilidade do câmbio como "excessiva", mas disse não esperar situações catastróficas representadas por queda das exportações e enxurrada de importações. "As previsões para 2006 não são catastróficas. As indicações são de saldo comercial que cai de US$ 42 bilhões para US$ 36 bilhões." Markwald participou ontem de seminário na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) sobre mudanças na corrente de comércio exterior do Brasil. Augusto Franco, diretor da Firjan, apresentou trabalho, segundo o qual, apesar da redução da rentabilidade das exportações, os ganhos para o exportador, em 2005, ainda são 2% superiores aos de 2000. Franco disse que o aumento dos preços das exportações compensou parte da perda da receita com a valorização do câmbio. Para Markwald , há uma "superestimação" da contribuição que a queda dos juros pode dar para maior equilíbrio no câmbio. "Acho que a redução do saldo comercial terminará desvalorizando o real frente ao dólar. Gostaria que o reequilíbrio do câmbio fosse gerado pela expansão do mercado doméstico, pelo nível de atividade que aumenta as importações." A economista Sandra Rios, consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmou que a decisão de muitas empresas de continuar a exportar, apesar da rentabilidade baixa, contribuiu para a manutenção da trajetória ascendente das exportações, mesmo com o câmbio sobrevalorizado. "A entrada e saída das empresas dos mercados é prejudicial às estratégias de internacionalização de longo prazo." Segundo Sandra, o "boom" exportador dos últimos anos ocorreu sem que nenhum acordo comercial importante fosse firmado pelo Brasil. Segundo a Funcex, entre 2002 e 2005 o crescimento médio das exportações deve ficar em 24% ao ano, índice só registrado entre 1967-1974. Sandra disse que é importante que haja foco e seletividade na agenda negociadora externa.