Título: Benefício movimenta economia local
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 25/10/2005, Especial, p. A14

Nos dias em que as mulheres do Bolsa-Família fazem fila na lotérica da cidade para receber seu dinheiro, o gerente da rede de supermercados Bitencourt em Fátima (BA), Romildo José de Oliveira, faz o possível para atrair a freguesia. Um locutor no alto de um caminhão de som anuncia as ofertas da semana. Quem encher a sacola leva dez pãezinhos de graça e ganha condução para não voltar a pé para a zona rural. A loja que Oliveira administra fatura R$ 140 mil por mês e o gerente calcula que R$ 20 mil chegam pelas mãos de beneficiários do Bolsa-Família. "Eles fazem diferença", diz Oliveira, que acha possível encontrar números parecidos em outras lojas da rede nas cidades vizinhas. Em agosto, o programa oficial pagou R$ 137 mil a 1,9 mil famílias em Fátima. O impacto econômico dos benefícios não é desprezível. Em agosto, o dinheiro do Bolsa-Família correspondeu a 14% dos recursos que Brasília transferiu aos municípios para preencher sua cota na divisão do bolo tributário. Em cidades menores, há casos em que os benefícios das famílias pobres foram equivalentes a mais de 40% dos repasses obtidos pela prefeitura, como em Crateús (CE) e Jacobina (BA). Foto: Sergio Zacchi/Valor

O comerciante Aldecir Alves de Lima: "Muita gente se acomoda com esse dinheiro" O economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados, estima que o Bolsa-Família representou 3% da massa de renda disponível para o consumo na região Nordeste no ano passado. Outras fontes de renda, como as aposentadorias de trabalhadores rurais e os salários dos funcionários públicos, são mais relevantes, mas a importância dos benefícios das famílias pobres parece crescente. Vale observa que o comércio do Nordeste tem crescido acima da média nacional. De janeiro a julho, as vendas aumentaram 21% em Fortaleza, 7% em Salvador e 4% em Recife. "É possível que o mesmo esteja ocorrendo no interior", afirma Vale. "Além do Bolsa-Família, o aumento do salário mínimo e a manutenção da inflação em níveis muito baixos tiveram um impacto forte." Nem todo mundo parece se sentir parte da ação. Em Fátima, diz o gerente Oliveira, o grosso do dinheiro do Bolsa-Família vai parar no caixa do seu supermercado e de um concorrente do mesmo porte. As migalhas que restam são disputadas por mercados que têm dificuldade para competir com os preços e a variedade de produtos dos maiores. Em Jatobá (PE), o comerciante Aldecir Alves de Lima confirma essa impressão. Ele diz faturar R$ 8 mil por mês e calcula que apenas R$ 400 vêm dos beneficiários do Bolsa-Família. Lima tem outros problemas além da perda da nova clientela para os rivais. Dono de três caminhões que usa para transportar mercadorias e material de construção na região, ele diz que o Bolsa-Família tornou mais difícil encontrar quem se disponha a trabalhar para ele. "Muita gente se acomoda com esse dinheiro", diz o comerciante, que chegou à cidade para trabalhar na construção de uma ponte na década de 70 e prosperou com o tempo. Segundo ele, a situação se agrava nas duas semanas do mês em que as famílias recebem o benefício do governo. "Passo nas ruas perguntando quem quer ajudar com a carga no caminhão e ninguém quer ir." Os beneficiários do Bolsa-Família gastam quase tudo que ganham com alimentos, como é fácil perceber nos dias de pagamento nas cidades menores, quando as mulheres saem pelas ruas em busca dos melhores preços assim que põem a mão no dinheiro. Mas relatos de beneficiários, comerciantes e assistentes sociais sugerem que são comuns os casos em que os recursos são trocados por roupas e remédios. Algumas pessoas têm até se arriscado ao usar os cartões do governo como instrumentos de crédito informal, às vezes com o estímulo dos comerciantes. Esses beneficiários conseguem comprar fiado ou em prestações deixando com a loja o cartão e a senha como garantia de que sua dívida será paga no mês seguinte. O governo tentou acabar com isso determinando que os benefícios sejam pagos somente a quem apresentar um documento de identidade junto com o cartão. Segundo o dono de uma lotérica credenciada pela Caixa Econômica Federal (CEF) para pagar os benefícios, o problema diminuiu, mas não desapareceu. Em vez de irem eles mesmos sacar, os comerciantes agora vão com os beneficiários do Bolsa-Família buscar o dinheiro e ficam esperando do lado de fora. (RB)