Título: Nova tecnologia estimula qualificação do trabalho
Autor: Leandre Modé
Fonte: Valor Econômico, 24/10/2005, Valor Especial / CONSTRUÇÃO CIVIL, p. F2
O setor de construção civil mudou muito nos últimos 15 anos com a incorporação de tecnologias e a adoção de programas de qualidade e produtividade. Essas mudanças, no entanto, só agora começam a se refletir na qualificação dos operários dos canteiros de obras. A boa notícia é que o processo deve ampliar-se porque os novos sistemas construtivos exigem dos trabalhadores preparo, habilidades específicas e conhecimentos da área tecnológica. A capacitação do setor deu os primeiros passos na década de 80, quando a Construtora Método, de São Paulo, criou o primeiro curso de alfabetização em seus canteiros de obra. "Na época, a qualidade e a produtividade dependiam de empregados que nem sabiam ler", relembra Hugo Marques da Rosa, presidente da empresa, que hoje trabalha com mão-de-obra terceirizada, tendência acentuada nos últimos anos. Mesmo com o advento da tecnologia, a realidade dos canteiros mudou pouco. "A qualificação é o último estágio pelo qual passam empresas que investiram pesado em novos materiais, processos construtivos, modelos de gestão", comenta Carlos Eduardo Cabanas, diretor da Escola Orlando Laziero Ferraiolo, o único centro nacional do Senai de formação de mão-de-obra para o setor, localizado em São Paulo. Oferece 27 cursos, alguns de nível médio, reconhecidos pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea). "Os empresários ainda encaram a formação dos operários como despesa e não investimento". Nem todos pensam assim. A Tecnisa Construtora e Incorporadora tem hoje 350 funcionários operacionais próprios e 1.000 terceirizados. O processo teve início com um curso de alfabetização e estendeu-se para o primeiro grau. Com a ajuda de voluntários, a empresa estruturou também um curso de alfabetização digital. Diante das dificuldades de a mão-de-obra própria e terceirizada usar as novas tecnologias, os engenheiros elaboraram apostilas sobre diversos temas e ministraram as aulas. Já o programa Profissionais do Futuro dá oportunidade aos operários de aprender ou aperfeiçoar técnicas e mudar de patamar profissional. "Valorizados, os funcionários tornavam-se mais empenhados, caprichosos e comprometidos", diz Sábio Villasboas, diretor técnico de engenharia. O velho curso de alfabetização do início da década de 90 foi substituído na Camargo Corrêa por supletivos de 1º . e 2º graus. Atualmente, 1.750 pessoas, pouco mais de 23% dos 7.500 empregados operacionais, freqüentam as aulas. Outros 180 são qualificados para funções, como operadores de equipamentos, solda, montagem industrial, eletricistas. Também são ministrados cursos de aperfeiçoamento para armadores, soldadores e carpinteiros, por exemplo. "A industrialização da construção exige uma formação melhor", explica Enes Vilela, gerente de desenvolvimento humano e organizacional. O setor tem hoje 1,4 milhão de empregados com carteira assinada, segundo o Sindicato da Indústria da Construção do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) - quase o mesmo número de pessoas empregadas apenas em São Paulo há 15 anos. Outros 3,3 milhões são informais. "As vagas do setor formal foram perdidas em função da queda das atividades nos últimos anos e da adoção da tecnologia", explica o presidente do sindicato, João Cláudio Robusti. Mas o nível de emprego está em expansão. De janeiro a agosto deste ano, o setor contratou 110,4 mil trabalhadores, 8,58% a mais em relação ao mesmo período de 2004. Segundo Robusti, 5 mil empresas estão envolvidas em programas de qualidade em São Paulo, o que reforçará o movimento pela qualificação. Tanto que outra escola do Senai deverá ser construída em Bauru e estão em andamento estudos para adotar a certificação profissional. O programa-piloto deverá ser implantado em São Paulo no próximo ano.