Título: Revisão de acordo automotivo opõe sócios
Autor: Raquel Landim e Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2005, Brasil, p. A5

Comércio exterior Argentina quer regras mais rígidas e Brasil é contra

O Brasil se recusa a aceitar a demanda da Argentina de prorrogar o regime automotivo sem estabelecer um prazo para o livre comércio entre os dois países nesse setor. O governo brasileiro teme que o Mercosul perca ainda mais investimentos das montadoras para outras regiões do mundo e sofra um revés em suas negociações com outros blocos. Os acordos do Mercosul com o México e o Chile prevêem o livre comércio de veículos. Já a Argentina argumenta que o atual regime automotivo mantém uma situação muito desfavorável. Mais de 60% dos veículos vendidos na Argentina são brasileiros, enquanto apenas 2,8% dos automóveis vendidos no Brasil são argentinos. A posição da Argentina é não estabelecer uma data para o início do livre comércio, condicionando a liberalização a uma solução para o que considera assimetrias que favorecem o Brasil na disputa por investimentos. O país quer um fluxo de comércio mais rígido, controlado empresa por empresa. O atual acordo automotivo entre Brasil e Argentina expira no fim do ano e deve ser, mais uma vez, prorrogado. Depois de três reuniões preparatórias, nas quais foi preparado um diagnóstico da indústria automotiva do bloco, os técnicos dos dois países começarão efetivamente a negociar em 7 de novembro durante encontro em Buenos Aires. A perspectiva otimista é chegar a uma solução até 30 de novembro, quando acontece a reunião de cúpula do Mercosul em Montevidéu. A previsão pessimista aponta para a manutenção do regime em suas atuais condições até o início de 2006, enquanto se busca um acordo. "Precisamos sinalizar para o mundo que estamos equacionando nossas assimetrias e caminhando para o livre comércio", afirmou ao Valor Antônio Sérgio Martins Mello, secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Ele acrescenta que o Brasil entende a necessidade de harmonizar a produção, mas pondera que "não se deve perder de vista que a lógica da indústria do Mercosul é global". Mello coordena as negociações junto com José Díaz Pérez, subsecretário da Indústria da Argentina De acordo com dados do Mdic, o Mercosul já está perdendo investimentos significativos para China e Leste Europeu. Em 1997, o bloco do Cone Sul era responsável por 4,7% dos veículos produzidos no mundo. Em 2004, essa participação caiu para 3,9%. Em contrapartida, a fatia da China saltou de 3% para 7,9%. Nos países do Leste Europeu, passou de 1,9% para 2,5%. "Temos que resistir a uma visão conjuntural para ter uma visão estratégica", diz Mello. O secretário atribui as disparidades do comércio entre Brasil e Argentina ao "perfil" da produção e dos mercados. O Brasil se especializou em carros populares, cada vez mais demandados em ambos os países. Já a Argentina produz carros médios, que as crises econômicas deixaram mais distantes dos consumidores. De janeiro a agosto, o Brasil exportou US$ 2,3 bilhões para a Argentina em veículos e autopeças e importou US$ 1 bilhão do país vizinho. No ano passado, as exportações chegaram a somar US$ 2,8 bilhões e as importações, US$ 1,1 bilhão. O intercâmbio era favorável para a Argentina até 2002, quando as exportações brasileiras foram de US$ 600 milhões. O comércio entre Brasil e Argentina é regulado por meio de um indicador chamado de "flex". Para cada dólar importado da Argentina, o Brasil tem direito de exportar US$ 2,6. Segundo disse uma fonte do governo argentino ao Valor, o país quer fazer alterações no indicador que regula o comércio, diminuindo a proporção do valor que pode ser importado para cada dólar exportado e atribuindo coeficientes diferentes para cada empresa. Um diplomata brasileiro ligado à negociação admitiu que o Brasil poderá aceitar um "flex" mais restritivo, mas afirmou que, por enquanto, essa não é a posição oficial. Com um índice ("flex") diferenciado para cada montadora, o governo argentino busca pressionar as empresas instaladas no país a produzir localmente. Para determinar o índice de cada empresa, seriam avaliados critérios como realização de investimentos, criação de empregos e realização de novos projetos. A intenção é punir as companhias que reduziram suas operações depois da crise econômica e dar condições melhores às que realizaram investimentos. Se a idéia vingar, a montadora mais prejudicada deve ser a Fiat, que, em conseqüência da crise, chegou a paralisar totalmente as atividades em sua fábrica na província de Córdoba e hoje produz só motores e caixas de câmbio. De acordo com a fonte do governo argentino, também serão considerados os números de exportação das empresas para fora do Mercosul. Assim, se uma empresa vende pouco ao Brasil, mas exportam muito a outros destinos, terá também um limite mais flexível para poder trazer veículos do país vizinho. O México já é hoje um dos principais mercados para os carros argentinos e brasileiros. Outra preocupação argentina é com os modelos bi-combustíveis no Brasil. A Argentina - que só fabrica o motor convencional - não domina essa tecnologia, que ganha cada vez mais espaço no mercado.