Título: Efeito do benefício nas eleições ainda é incerto
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2005, Especial, p. A12
Marlúcia Aureliana do Nascimento já ouviu falar muito do mensalão e da confusão em Brasília, mas não se deixa convencer facilmente. "Só vou cair nessa crítica se for verdade", diz. Ela garante ter votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em todas as eleições que ele disputou e se mostra disposta a repetir a escolha no próximo ano. "Lula não está pior do que os outros", afirma. Aos 37 anos, Marlúcia vive com o marido e os cinco filhos num povoado na zona rural de Cícero Dantas (BA) e todo mês recebe R$ 80 do Bolsa-Família. Como muitos beneficiários do programa, ela entrou pela porta do Bolsa-Escola no fim do governo Fernando Henrique Cardoso, viu o valor do benefício aumentar depois da chegada de Lula e tem medo de ficar sem o dinheiro se outra pessoa vencer as eleições. Muitos observadores consideram o Bolsa-Família uma arma infalível a serviço da reeleição de Lula, mas é cedo para ter tanta certeza. Embora os benefícios políticos de um programa que distribui dinheiro para milhões de pessoas pareçam óbvios, há razões para duvidar que sua influência na próxima campanha eleitoral possa ser tão decisiva. Foto: Sergio Zacchi/Valor
Eleitora de Lula, Marlúcia já ouviu falar muito do mensalão, mas desconfia: "Só vou cair nessa crítica se for verdade" Em grande parte, a crença no poder de fogo do programa reside numa coincidência. Assim como existe uma concentração de beneficiários do Bolsa-Família na região Nordeste e entre os mais pobres, encontram-se nesses grupos as mais altas taxas de aprovação do governo Lula. A pesquisa mais recente do Ibope informa que 46% dos brasileiros aprovam o governo Lula. No Nordeste, 58% têm a mesma opinião. Mas não há uma ligação direta entre essa impressão e o fato de os eleitores serem beneficiados por programas assistenciais do governo. "As pessoas desses grupos têm um grau de informação menor sobre a crise política e isso também pode explicar seu comportamento", afirma o sociólogo Gustavo Venturi, coordenador do Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo, um centro de estudos ligado ao PT. A identificação que as famílias fazem entre a ajuda que recebem e o governo ainda parece muito rarefeita para produzir efeitos políticos. Uma pesquisa feita em agosto por encomenda do Ministério do Desenvolvimento Social revelou que muitos não sabem se devem o benefício às prefeituras, onde as famílias são cadastradas e recebem os cartões que usam para sacar o dinheiro, ou a Brasília, de onde vem o pagamento. Muitos beneficiários do Bolsa-Família começaram a receber a ajuda no governo tucano e a maioria ainda usa os cartões distribuídos naquela época, o que reforça o problema de identidade do programa. "O povo sabe que o benefício vem de antes e acha que quem está fazendo isso é o prefeito", diz a coordenadora do Pólo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Submédio São Francisco, Rita de Cássia dos Santos. Além disso, governadores de oposição como o de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e prefeitos de capitais firmaram parcerias com o governo federal para complementar o valor dos benefícios do Bolsa-Família e dificilmente deixarão Lula faturar sozinho os votos dos beneficiários. "A paternidade do programa só será definida na campanha", diz o economista Alexandre Rands, do Datamétrica, um instituto de pesquisas de Recife. Experiências recentes também recomendam cautela. Logo que assumiram a prefeitura de São Paulo, no início do ano, os tucanos fizeram um exercício revelador ao cruzar informações que acharam no cadastro dos beneficiários do programa de renda mínima deixado pela ex-prefeita Marta Suplicy (PT) e os resultados das eleições do ano passado. Segundo o estudo, a prefeitura incluiu muitas famílias no programa às vésperas da eleição e a maioria vivia em regiões da cidade onde os candidatos a vereador do PT tinham poucos votos. "Eles tentaram alavancar seu eleitorado com o programa", diz o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro. Pode ser. Mas o exercício também mostrou que os petistas não conseguiram a maioria dos votos das famílias cadastradas na última hora. (RB)