Título: Andando seis horas até o posto de saúde
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 26/10/2005, Especial, p. A12
Joselma dos Santos vive com o marido e os dois filhos na margem de uma estrada no interior de Alagoas. Aos 20 anos, ela engravidou novamente. Embora esteja no sexto mês da gravidez, Joselma só teve uma consulta médica até agora, em setembro. Para chegar ao posto de saúde mais próximo, ela levou seis horas andando a pé. Queria um remédio para tonturas. Estava em falta. Joselma é beneficiária do Bolsa-Alimentação, um dos programas absorvidos pelo Bolsa-Família. Como ainda não entrou no novo cadastro, ela recebe apenas R$ 30 por mês, de acordo com as regras antigas. Se quisesse chegar logo ao posto de saúde, Joselma teria que pagar R$ 15 aos donos das caminhonetes que fazem o transporte público na região. Como o antecessor, o Bolsa-Família exige que as mulheres façam exames regularmente durante a gravidez, vigiem o crescimento dos filhos e mantenham em dia suas vacinas. Mas em casos como o de Joselma é difícil cumprir a exigência, por causa das dificuldades encontradas no acesso à rede pública de saúde. Para o Ministério da Saúde, situações como essa tornaram-se raras nos últimos anos, com o avanço de programas como o dos agentes de saúde da família, que visitam comunidades pobres batendo de porta em porta. "O acesso ao sistema hoje é universal", diz o diretor do Departamento de Atenção Básica do ministério, Luís Fernando Rolim. Um estudo do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês) com beneficiários do Bolsa-Alimentação concluiu que o programa não ampliou o acesso da população aos serviços de saúde. Participantes do programa e não-beneficiários tiveram o mesmo número de consultas médicas no período analisado. Mas o dinheiro faz diferença no combate à desnutrição infantil, um dos focos principais do Bolsa-Família. Estudos mais recentes feitos pelo departamento de Rolim sugerem que cerca de 70% dos recursos distribuídos têm sido usados na compra de comida, aumentando o consumo alimentar e a diversidade da dieta das famílias pobres. (RB)