Título: Para analistas, PT deixou de nortear debate
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 27/10/2005, Política, p. A10

A vitória do voto 'não' no referendo pela proibição de venda de armas leves terá conseqüências para além da segurança pública. Segundo o pesquisador e ex-secretário nacional da área, Luiz Eduardo Soares, uma onda de conservadorismo pode se impor no país. "Este é o primeiro resultado eleitoral e político que nós temos no Brasil, depois que o PT deixou de ser uma bússola que orientava a postura de movimentos sociais. O que vimos foi uma agenda conservadora extremista conquistando uma nova legitimidade", afirmou o pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, durante o primeiro dia da reunião anual da Anpocs, a entidade que reúne cientistas políticos e sociais de todo o país. Para Soares, a ausência do PT na discussão do referendo pode gerar um quadro eleitoral e político futuro em que não haja mais uma referência líder na esquerda. "O referendo enuncia um novo quadro, não necessariamente ruim, mas que pode gerar também conseqüências perversas", disse, lembrando que a campanha televisiva do 'não' associou o conservadorismo com símbolos positivos no imaginário do eleitor, como o patriotismo e a defesa das liberdades individuais. "A grande sabedoria da campanha do 'não' foi dizer que estávamos ameaçados de perder direitos que, na verdade, nunca tivemos", comentou o cientista político Gildo Marçal Brandão, da USP. Brandão é prudente ao analisar se o voto 'não' representa a volta da extrema-direita como elemento definidor do discurso eleitoral no país: por enquanto, afirma o cientista político, só é possível dizer que foram recolocados em discussão propostas que nunca haviam conseguido sair de um nicho ultraconservador, como a pena de morte e a redução da maioridade penal. Mas concorda com Soares ao dizer que o PT, como norteador de discussões públicas, esvaziou-se. "O PT perdeu completamente a capacidade de dar norte para certas camadas da classe média e de grupos sociais organizados se posicionarem. É um partido desbaratado por um problema ético, um problema político e um problema de falta de agenda", disse, ponderando que, no caso específico do desarmamento, nenhum partido em sua opinião conseguiu capitanear de forma clara uma tendência pelo 'sim' ou pelo 'não'. "Havia figuras defensoras e contrárias das duas posições dentro do PSDB e do PFL". A tese de que o referendo de domingo transformou-se em uma espécie de plebiscito contra o governo Lula não entusiasmou os pesquisadores. "A campanha pela proibição das armas não era uma campanha do PT. Outros partidos estiveram muito fortemente envolvidos nesta empreitada. Houve um certo abandono das posições anteriormente tomadas no momento em que ficou nítida a derrota no referendo e a sua caracterização como uma derrota do PT", disse o professor Sebastião Velasco e Cruz, da Unicamp. "Em parte, o voto 'não' no plebiscito foi um voto contra o governo, mas esta não é a questão mais relevante", disse Soares. "A vitória do voto 'não' nas áreas mais ricas e a vitalidade do 'sim' nas regiões mais pobres não podem ser justapostas à popularidade de Lula conforme a renda do eleitor. Não é verdade a generalização de que o eleitor pobre tende majoritariamente a Lula e o eleitor rico tende a rejeitá-lo", disse Brandão.