Título: Na eleição, Kirchner busca consolidar sua visão do peronismo
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Internacional, p. A8
Argentina País vai às urnas para renovar Congresso, mas voto é visto como plebiscito sobre atual governo
O peronismo nasceu na Argentina nos anos 40 como uma alternativa à democracia liberal e ao socialismo, flertou com o fascismo italiano e parte de seus militantes chegou a praticar a luta armada com objetivos revolucionários. Nos anos 90, sua linha dominante, chefiada pelo ex-presidente Carlos Menem, assumiu o ideário neoliberal. Agora, o movimento pode estar prestes a sofrer mais uma mutação, desta vez liderada pelo atual presidente, Néstor Kirchner. Mas o que é o "kirchnerismo"? A Argentina faz no domingo eleições legislativas que serão decisivas para definir o controle sobre o Partido Justicialista (PJ, peronista). Kirchner espera que o resultado o coloque na liderança definitiva do bloco político que o levou ao poder mas que, paradoxalmente, funciona também como principal foco de oposição ao seu governo. A expectativa do presidente é conseguir uma vitória suficientemente ampla para reforçar seu comando sobre o PJ. Um resultado positivo fará com que seja mais fácil cooptar facções rivais e enfrentar eventuais os focos internos de oposição remanescentes. Em linhas gerais, Kirchner e seus aliados têm definido o kirchnerismo como antítese do menemismo dos anos 90. O presidente diz buscar a recuperação do perfil da Argentina como país industrial, estimulando as exportações e a substituição de importações por meio de uma moeda mantida "competitiva" graças a intervenções do BC. Kirchner busca ainda um papel mais proeminente do Estado na economia, em contraste com a onda privatizadora de Menem. Criou uma estatal de energia e mantém um conflito com concessionárias de serviços públicos privatizadas que, mais de três anos após a desvalorização, tiveram suas tarifas reajustadas apenas parcialmente. Além disso, exibe como troféu e símbolo de sua gestão a renegociação da dívida externa que caiu em default no final de 2001, exemplo de uma postura de negociação dura e do fim de uma atitude supostamente subserviente às instituições financeiras internacionais, que estaria trazendo resultados práticos positivos para o país. Junto com uma política de direitos humanos que reabriu a discussão sobre o destino de milhares de desaparecidos durante o regime militar, Kirchner diz opor-se à "velha política", o que inclui setores não peronistas. Como quem controla a estrutura partidária hoje é o ex-presidente Eduardo Duhalde, os candidatos do governo não concorrerão como membros do PJ, mas como integrantes da Frente para a Vitória, um selo político que, dependendo da localidade, pode incluir o peronismo tradicional, a UCR e setores da esquerda. Apesar desse discurso de "renovação", opositores do presidente vêem poucas diferenças entre o peronismo tradicional e o que vem fazendo Kirchner. "Este governo tem todas as características do peronismo tradicional: busca controlar a Justiça, é nepotista, usa recursos do Estado com fins clientelistas, pressiona a imprensa e sufoca a oposição", disse o historiador José Ignacio García Hamilton. Ele vê como principal diferença do modelo atual, na comparação com o menemismo, o fato de o ex-presidente ter governado com um dólar forte e ter aberto o país à competição dos produtos importados, além de ter demonstrado mais respeito à oposição. "Mas os dois são parecidos, porque Menem se endividou para poder levar a cabo práticas populistas." Na visão de Hamilton, Kirchner está usando os recursos do Estado, agora provenientes do superávit fiscal, que por sua vez é alimentado em boa parte pelos impostos cobrados sobre as exportações do setor agropecuário, para criar um caixa que é operado de maneira quase discrecional pelo Executivo, que distribui fundos de acordo com lealdades políticas. Mas não há alternativa de poder aparente ao peronismo. A oposição não conseguiu se recompor do golpe sofrido com a crise de 2001, que levou à renúncia do ex-presidente Fernando de la Rúa. Kirchner centrou sua estratégia em fazer desta eleição um plebiscito sobre sua gestão, e houve pouca discussão de propostas. "Esta é a campanha mais vazia desde o retorno à democracia", disse a socióloga Graciela Rommer. Devido à popularidade alta do presidente (cerca de 70%), a maioria dos candidatos evita atacá-lo. O presidente vem colhendo frutos do desempenho econômico (a Argentina cresceu dois anos seguidos a 9% e deve fechar este ano em 8%). Como ele era um personagem político quase desconhecido, acabou superando as expectativas da população. "As expectativas em relação ao desempenho do governo eram baixíssimas em 2003, o que foi uma grande vantagem para Kirchner", afirmou Rommer. A maioria dos analistas, simpáticos ou não ao governo, diz que uma vitória eleitoral de Kirchner pode pelo menos dar mais previsibilidade ao país, com a continuidade da gestão econômica e menos riscos de solavancos políticos. Se Kirchner vencer, Hamilton prevê que ele deve "acentuar sua tendência autoritária e hegemônica", usando a máquina do Estado para se reeleger em 2007 e, quem sabe, fazer com que sua mulher, a senadora Cristina Fernández, chegue à Presidência em 2011.