Título: Moradores de Eldorado tentam entender a crise
Autor: Marli Lima
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Agronegócios, p. B12

Passados dez dias desde a confirmação do foco de febre aftosa em Eldorado (MS), os moradores do município ainda tentam entender direito o que aconteceu. As charretes que passavam de casa em casa bem cedinho para entregar leite em garrafas descartáveis de refrigerante não circulam mais, porque foi proibida a venda do produto. Os caminhões boiadeiros estão parados na frente das casas dos donos sem ter o que transportar. Tem gente que já pensa em ir embora. "Estou pensando em me mudar para o Mato Grosso. As prestações do caminhão vão vencer e precisam ser pagas", afirmou Liomar Zacarias, de 29 anos. Ele fazia transporte para o frigorífico Boifran, que na semana passada foi obrigado a conceder férias coletivas para seus 580 trabalhadores. O caminhoneiro contou que paga R$ 1,8 mil por mês pelo veículo e tem mulher e dois filhos para sustentar. "Trinta dias parado é o meu limite", afirmou. Outros 44 colegas de Zacarias se encontram na mesma situação com a crise sanitária desencadeada na fronteira com o Paraguai. Na chácara Schultz, que fica dentro da cidade, o cavalo que Neuza Schultz usava para entregar 50 litros de leite por dia está parado. "Nem sei o que fazer", disse ela, que tinha 40 clientes que pagavam por mês. "Eu deixava a garrafa de leite na cerca, no muro, e com isso dava para pagar as despesas da casa", afirmou. Neuza, de 52 anos, mora com o filho Clodoaldo, que é solteiro e empregado do Boifran. Ele está com medo de ser demitido. O filho casado, Claudinei, também trabalha no frigorífico e tem três filhos. "Vamos começar a passar dificuldades quando as contas começarem a vencer", disse ela.