Título: Entrada de carne do MS faz preços caírem em SP
Autor: Marli Lima
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Agronegócios, p. B12

A abertura das fronteiras de São Paulo à carne bovina desossada e maturada do Mato Grosso do Sul - exceto dos cinco municípios interditados por conta dos focos de aftosa já confirmados na fronteira com o Paraguai - provocou redução de preços pagos aos pecuaristas paulistas e elevou a pressão sobre os valores praticados no atacado do Estado. Segundo analistas, o redirecionamento de cargas paradas no porto de Santos para o mercado local também ajudou a baixar os preços. Conforme José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, a entrada da carne sul-mato-grossense em São Paulo "destravou" o mercado, mas fez o melhor preço da arroba rastreada com prazo de 30 dias para o pagamento cair ontem (dia 20) para R$ 58, ante os R$ 59 que vinham sendo indicados até então e os R$ 60 dos dias que antecederam o início da crise da aftosa, cujo primeiro foco foi confirmado no dia 10 deste mês. No atacado paulista, diz, o quilo do traseiro recuou para R$ 4,40, ante os R$ 4,80 de antes da crise, e do dianteiro desceu a R$ 2,90, contra R$ 3,30 no último dia 7.

O cenário poderia justificar quedas nos preços ao consumidor nos próximos dias, ainda que os sinais até agora sejam altistas. Paulo Pichetti, coordenador da pesquisa do IPC da Fipe, lembrou que na segunda quadrissemana deste mês a cesta "carne bovina" - formada por cerca de 15 itens - subiu 7,8%. Ele afirmou que a forte valorização apurada reflete reajustes promovidos antes dos focos de aftosa, quando os preços vinham em alta no campo e no atacado, mas não descartou a possibilidade de a crise ter tido impacto no comportamento. Antenor Nogueira, presidente do Fórum de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), discorda. "Tem apropriação no meio do caminho. Ou é a indústria ou é o próprio varejo quem está se beneficiando", acusou. Ele informou, ainda, que a CNA quer mudar o método de cálculo dos contratos futuros da BM&F. "A BM&F fixa um preço para São Paulo, mas que não tem a ver com outros Estados. São preços irreais", disse. Análise do Cepea/USP mostra que, dez dias depois da confirmação do primeiro caso de aftosa no Mato Grosso do Sul, os preços pagos ao produtor recuaram em quase todo o país. Das 17 praças pesquisadas pelo órgão, apenas Cuiabá (MS) se manteve com mercado firme. Lá, a arroba à vista, que no dia 13 saía por R$ 51,74, bateu em R$ 52,24 no dia 19. Segundo o Cepea, as cotações dos suínos também foram afetadas. Na região de Campinas (SP), houve queda de 2,24% em sete dias. Na quarta, o quilo do animal ficou em R$ 2,24. José Vicente Ferraz reiterou que ainda é difícil traçar uma tendência para os preços, em virtude das indefinições em torno da duração da crise da aftosa. E observou que, com isso, há grandes frigoríficos instalados em São Paulo que já reduziram em 30% - em alguns a queda chegou a 50% - o ritmo de abates. Normalmente os abates no Estado variam de 15 mil a 20 mil cabeças por dia, estima. "São indefinições que ainda devem durar mais alguns dias. Depois, a tendência é de preços mais baixos no Mato Grosso do Sul e firmes em São Paulo", afirmou ele. Com a abertura da fronteira com São Paulo, os frigoríficos sul-matogrossenses retomaram 40% do abate. Na semana passada, de fato houve retenção de contêineres com carne no porto de Santos. Mas, conforme informações de terminais do porto, a situação voltou ao normal. No porto de Paranaguá (PR), o movimento de carnes congeladas até cresceu. O volume total embarcado desde 1º de outubro até ontem atingiu 31,3 mil toneladas, 1,2 mil toneladas a mais que o mesmo período de 2004.(Colaborou MZ)