Título: Japorã vê sinais de aftosa há um mês
Autor: Marli Lima
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Agronegócios, p. B12

Crise sanitária Município convive com a doença pelo menos desde o dia 10 de setembro

O foco de febre aftosa que deflagrou a atual crise sanitária na fronteira com o Paraguai foi confirmado em uma fazenda de Eldorado (MS) no dia 10 de outubro, mas os sintomas da doença começaram a aparecer pelo menos um mês antes em propriedades da vizinha Japorã. Em quatro delas, visitadas pelo Valor, produtores admitiram que, na ocasião, os animais "suspeitos" foram medicados apenas com o antibiótico terramicina, utilizado no combate a diversos tipos de bactérias. O pecuarista paulista Antonio Astorini, dono das fazendas Santo Antonio e São Benedito, ambas de Japorã, informou que em 10 de setembro dois novilhos ficaram tristonhos. "Não conhecia os sintomas. Podia ser febre, mas também podia se tratar da ingestão de alguma erva. Aplicamos o antibiótico e ele melhorou". No início de outubro, outros seis animais estavam doentes, mas só quando surgiu a suspeita do foco de Eldorado é que a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) foi informada da situação. Astorini tem 317 animais e já está certo que 246 serão sacrificados. O problema foi verificado inicialmente na Santo Antonio, mas como os "cuidadores" do gado circulam pelas duas fazendas, o vírus foi espalhado. Não muito distante dessas propriedades fica a Fazenda Guaíra, do pecuarista Nelson Miyazaki, de Guaíra (PR), município que faz fronteira com o Mato Grosso do Sul e o Paraguai e tem na divisa o rio Paraná. Nela terão de ser sacrificados 786 animais. O administrador Hélio Alves também informou que os primeiros bois doentes começaram a aparecer em meados de setembro. "Uns dez bois começaram a ficar tristes e suspeitamos de intoxicação com o veneno que é passado no lombo para matar moscas", explicou. "Um veterinário veio aqui, demos terramicina e os bois sararam". Segundo ele, depois disso outros animais apareceram doentes e foram tratados. "Nem sei o que á aftosa. Dá dó de saber que vai ter de matar tudo". Alves contou que, nesse meio tempo, duas vacas morreram e foram enterradas na fazenda. "Eram vacas velhas". Essas áreas ficam próximas ao assentamento Roseli Nunes, resultado de uma invasão de terra feita na fazenda Indiana nos anos 90. Há seis anos 3,5 mil alqueires da propriedade foram divididos em 212 lotes. Em um desses lotes, o de número 42, onde há 48 bovinos, a aftosa também chegou há um mês. "Uma novilha começou a ficar abatida e aplicamos terramicina", contou a dona, Maria de Lourdes Ferreira de Abreu. Hoje, além dessa novilha, uma vaca e três bezerros estão doentes e o Iagro disse para Maria de Lourdes que iria colher amostras dos animais. "Três bezerros, de ontem para cá, não estão conseguindo nem andar", acrescentou Maria de Lourdes. Em Eldorado, a aftosa foi encontrada em grandes propriedades. Em Japorã, porém, o controle é mais complicado. Nos últimos dias começaram a aparecer novos casos e um funcionário do Iagro chegou a comentar sobre a tristeza de ver que muita gente pobre vai ficar sem seu gado. O lote 205, de Genildo Nogueira dos Reis, foi outro onde a doença já se manifestou em três animais. Ele tem 18 hectares de terra e 40 cabeças, mas só 17 estavam no pasto onde foi verificada a aftosa e onde o Iagro já colheu amostras. "O Iagro passou aqui há seis dias e não tinha nada errado. Dois dias depois uma vaca e uma cria começaram a babar e outro bezerro passou a mancar". Reis também chegou a aplicar remédio nos animais para ver se eles saravam. E ele ressaltou que já surgiu uma suspeita de foco de aftosa em outro lote vizinho ao seu. "Esse negócio está andando no ar". Dos 7 mil moradores de Japorã, 1,5 mil vivem na área urbana. Outros 4 mil são índios da tribo guarani-caiuá e, o restante, reside em pequenas propriedades. Procurado, o Iagro não forneceu informações sobre quantos focos já haviam sido localizados no município.