Título: Capital de giro e os financiamentos de bens puxam expansão do crédito
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Finanças, p. C1

Dívidas Crescem Pequenas e médias empresas estão tomando mais recursos nos bancos

Comércio e serviços e as pequenas e médias empresas de todos os ramos, mais do que a indústria, estão puxando a expansão do crédito doméstico para pessoas jurídicas nos últimos meses e também no acumulado do ano e dos últimos 12 meses. As modalidades de empréstimos que mais têm crescido são as linhas de capital de giro e de aquisição de bens, segundo as últimas estatísticas do Banco Central. As taxas de juros, ainda extremamente elevadas, pouco se alteraram este ano, mas os "spreads" tiveram ligeiro declínio - de 21,5% em janeiro para 19,9% em agosto. O efeito da redução da taxa básica de juro (a Selic), pelo segundo mês consecutivo, foi irrelevante para esse processo, dizem os executivos das áreas de crédito dos grandes bancos, analistas e consultores. De acordo com os dados do BC, as operações de crédito com recursos livres para pessoas jurídicas, nas principais modalidades, totalizaram R$ 172,4 bilhões em agosto, com crescimento de 9% no ano - muito abaixo dos 28,6% registrados nas linhas de pessoas físicas. Dentro desse conjunto, que inclui as modalidades associadas à variação cambial (ACC, "export notes" e repasses externos), as linhas de capital de giro e conta garantida foram as que mais cresceram: respectivamente, 15,2% e 11,2% no ano e 29,8% e 12% nos últimos 12 meses até agosto. "O comércio tem alavancado o crédito", afirma Edson Carminatti, analista financeiro do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), entidade sem fins lucrativos sediada em Ribeirão Preto, que absorveu as atividades de consultoria e análise da ABM Consulting. Segundo ele, dados do IBGE já apontaram o vigor do comércio, que cresceu 16,6% nos últimos 12 meses entre julho de 2004 e o mesmo mês de 2005. A explicação está na queda do desemprego (de 11,4% em agosto de 2004 para 9,4% em agosto de 2005) e uma recuperação da renda real média por habitante, sempre segundo o IBGE. Para Carminatti, a estabilização da economia e o arrefecimento da crise política - que na verdade pouco afetou a atividade econômica - estão por trás do desempenho do emprego e da renda. Do lado da demanda, Luiz Guilherme Piva, economista-chefe da BDO Trevisan atribui a maior presença do comércio nos financiamentos à necessidade desse setor de captar recursos para financiar as vendas. "A atividade comercial é essencialmente giro, não surpreende que esse setor esteja liderando o crédito para capital de giro", afirma André Chagas, Assessor Econômico da Serasa. Porém, do lado da oferta, há alguns dados novos dando o tom do crescimento das linhas de capital de giro. De acordo com a análise de um executivo de um dos grandes bancos de varejo, que preferiu não se identificar, o volume de empréstimos para capital de giro engloba duas grandes tendências do sistema financeiro. Uma é a entrada de novos correntistas, a chamada bancarização, que além de trazer pessoas físicas, tem trazido também muitas micro e pequenas empresas para as agências bancárias. Outra é a valorização do real, que está levando muitos exportadores a adiar o fechamento dos contratos à espera de uma remuneração melhor pelas vendas. Durante essa fase, eles tomam empréstimos "curtos" de capital de giro quando alguma necessidade de financiamento aparece. Ao entrarem para o banco, o que as micro, pequenas e médias empresas querem é crédito, disse o executivo, lembrando que os bancos têm ampliado significativamente a oferta - e a concorrência entre eles. O capital de giro é a porta de entrada das pequenas empresas nos bancos, porque são linhas mais baratas, de concessão mais simplificada e de mais curto prazo. Também é um conforto para a instituição financeira: em um período de maior volatilidade, com aumento da inadimplência, a taxa de juros e os "spreads" são maiores e são as primeiras a ser cortadas. "Os bancos estão de fato emprestando mais, graças à grande liquidez hoje no sistema", explica Alexandre Azevedo, superintendente de Operações Estruturadas do Banco Real. Focado em grandes empresas, a área de Azevedo começa a permitir o acesso de companhias consideradas médias (faturamento acima de R$ 30 milhões anuais) a linhas de financiamento à exportação, por exemplo, o que até a pouco tempo não acontecia. "Os bancos passaram a correr atrás de mais clientes. Mas as empresas também estão apresentando balanços melhores por causa do crescimento da economia", define o executivo do Real.