Título: Greve no BC prejudica a divulgação de estatísticas
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 21/10/2005, Finanças, p. C3
Braços Cruzados Funcionários pedem 53% de aumento; 95% estão parados
A greve dos funcionários do Banco Central, que chegou ao 32º dia, está provocando atrasos na divulgação de estatísticas e suspensão de serviços prestados pela instituição. Ontem, o Departamento Econômico do BC deixou de divulgar sua nota do setor externo, com as estatísticas sobre o balanço de pagamentos. Pelas estimativas dos sindicatos que organizam a greve, a adesão é de cerca de 95% dos funcionários. O BC não divulga estimativas sobre o movimento. Nos últimos dias, até mesmo alguns consultores e chefes de departamento - cargos comissionados - paralisaram temporariamente seus trabalhos para participar das assembléias. A greve não impediu que, na terça e na quarta-feira, fosse realizada a reunião mensal do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC. Mas fontes informam que deixaram de ser preparadas informações secundárias, que tradicionalmente são analisadas pelos membros do Copom, embora não tenha faltado nenhum dos dados considerados essenciais para a tomada das decisões, como as projeções de inflação. O volume de reservas internacionais, que sempre foi divulgado ao público com dois dias de defasagem, não é atualizado desde 29 de setembro. O dado mais recente do movimento no mercado de câmbio, que é divulgado com defasagem de 15 dias, refere-se a agosto. O BC também deixou de divulgar as emissões de moeda para a compra de dólares, um importante termômetro das intervenções no mercado de câmbio. A PTax (média das taxas dos negócios de câmbio realizados durante o dia), divulgada no inicio da noite, tem saído apenas após as 22h. Houve prejuízo ao serviço de atendimento ao público do BC, que recebe reclamações contra instituições financeiras. Os funcionários do BC não conseguiram, porém, interromper a distribuição de dinheiro no país - trabalho feito pelo Departamento do Meio Circulante. A Casa da Moeda está distribuindo cédulas e moedas diretamente por meio do Banco do Brasil. Também vem sendo feitos os leilões de compra de moeda estrangeira, as operações de mercado aberto e as negociações de ativos das reservas internacionais. Preocupado com os efeitos da greve, o presidente do BC, Henrique Meirelles, decidiu assumir pessoalmente as negociações. Duas semanas atrás, os funcionários do BC fizeram protesto em depoimento de Meirelles no Congresso, que, àquela altura, não havia ainda aberto um canal direto de diálogo. Os funcionários do BC reivindicavam, a princípio, um reajuste de 53% nos seus salários, a título de reposição de perdas históricas. Um técnico do BC, cargo que exige escolaridade de nível médio, tem um salário inicial de R$ 3.154. Um analista, com nível superior, ganha R$ 6.292,49, e um procurador, R$ 7.872,88. Após muita negociação, o BC ofereceu um reajuste de 10%, dividido em duas parcelas, a primeira delas em janeiro de 2006. Os funcionários não aceitaram nem examinar propostas que parcelam o reajuste. Ontem, representantes dos sindicatos participaram durante praticamente toda a tarde de intensas negociações com o BC e os ministérios da Fazenda e do Planejamento. A expectativa era que as reuniões iriam prosseguir noite adentro, e as propostas seriam levadas hoje à assembléia dos funcionários.