Título: Por que surpresa?
Autor: Antonio Delfim Netto
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2004, Brasil, p. A-2
O "Financial Times" certamente exagerou quando disse, em 28 de outubro, que os "mercados mundiais foram pegos de surpresa" quando o Banco Popular da China (PBOC - um banco central politicamente controlado) elevou a sua taxa de empréstimo de um ano de 5,31% para 5,58% ao mesmo tempo em que elevou a taxa de depósito de 1,98% para 2,25%. Nos últimos 25 anos a China transformou-se numa importante potência econômica, política e militar. Medida em termos de paridade do poder de compra ela representa, hoje, 12% do valor adicionado da produção mundial, que se compara com 22% dos EUA. Parece, entretanto, um exagero sugerir que o "mundo foi pego de surpresa", pois o problema fundamental da economia chinesa se resume em como reduzir, de forma ordenada, o ritmo do seu crescimento. A tabela abaixo mostra as taxas de crescimento geométrico da economia chinesa nos últimos cinqüenta anos
A década de 60 revela os mais trágicos erros de Mao Tsetung que, com uma competência e crueldade únicas, restabeleceu o feudalismo na China e instalou-se como Imperador. Conhecido como o "Grande Timoneiro", era absolutamente ignorante dos problemas econômicos. Tentou tocar a China como havia vencido a guerra, na base da "emoção ideológica", com duas desastrosas operações: "o grande salto para a frente" e a "revolução cultural". Tenho ainda lembranças de alguns alunos "revolucionários" da FEA/USP carregando no bolso os "pensamentos de Mao"! Hoje, amnésicos e sem remorsos, ocupam cargos importantes na administração pública e são ferozes neo-clássicos! O "grande salto para a frente", que coletivizou a agricultura, produziu uma enorme queda da oferta de alimentos. Segundo estimativas confiáveis, matou de fome 25 milhões de chineses. A "revolução cultural" desarticulou a inteligência chinesa. Estimativas dos estragos produzidos pelo Grande Timoneiro foram feitas por Y.K.Kwan e G.C.Chow ("Estimating Economic Effects of Political Movements in China", Journal of Comparative Economics, 23(1996):192-208). São tão altas que custa acreditar nelas. Em setembro de 1976 morreu o Grande Timoneiro (herói da guerra e destruidor da paz). Em seu lugar emergiu Deng Xiaoping, um pragmático com sensibilidade para os problemas econômicos e que Mao havia afastado duas vezes do Governo. O poder migrou das mãos da radical imbecilidade dos maoistas para a de técnicos mais preparados. Em 1979, como complemento das reformas em andamento, a República Popular da China estabeleceu relações diplomáticas formais com os Estados Unidos. A partir daí, dá ênfase absoluta à abertura comercial com subsídios de toda a natureza, sem ter problemas com a Organização Mundial de Comércio (à qual veio a aderir apenas em 2002). Estabeleceu Zonas de Livre Comércio onde se pratica o mais selvagem capitalismo. Na década dos 1990 começa a receber uma enxurrada de investimentos diretos de chineses não-residentes, de empresas americanas, taiwanesas e japonesas que se instalam nas Zonas de Livre Comércio e são objeto de estímulos, absolutamente especiais, para exportarem para seus países de origem. Mão de obra barata e relativamente educada, taxa de juro real efetiva freqüentemente negativa por subsídios escondidos e taxa de câmbio sub-valorizada e mais 500 bilhões de dólares de investimento direto, produziram o "milagre" do crescimento de quase 10% ao ano nos últimos 13 anos. Nesses mesmos 13 anos o Brasil patinou. Faltou-lhe o "espírito do desenvolvimento". Deixou-se levar pela ideologia "que o crescimento é o fruto natural da estabilidade monetária" vendida como a última palavra da ciência econômica. O quadro mostra a mediocridade da liderança nacional entre 1990 e 2003 quando comparada com a chinesa:
Não deveríamos ter surpresa com a correção de juros do PBOC. Com o aumento da taxa de inflação em 2004 e 2005, ele apenas vai manter a taxa de juro real nas vizinhanças de zero como tem feito nos últimos anos. A China vai manter ainda por algum tempo sua taxa de câmbio desvalorizada e continuar a financiar parte do déficit em conta corrente dos EUA comprando papéis do Tesouro americano. E vai continuar a controlar diretamente o crédito por via administrativa, como sempre tem feito.