Título: Curto prazo domina debate da Varig
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 31/10/2005, Empresas &, p. B2

Aviação Problema de caixa ocupou quatro meses da recuperação judicial e plano ainda não foi negociado

No lugar de uma maratona, uma corrida de 100 metros rasos. A Varig ingressa no quinto mês de sua recuperação judicial, de um total de seis meses previstos na legislação para desenhar e aprovar um plano, e o processo parece ainda longe da linha de chegada. O esforço para solucionar a falta de caixa da companhia aérea tomou o lugar do que deveria ser uma cuidadosa negociação entre a empresa e seus credores para fechar questão em torno de um plano de reestruturação financeira e operacional de longo. "O fogo do problema de curto prazo é tão intenso que ocupou todas as atenções", afirma um advogado brasileiro que representa alguns arrendadores de aviões que são credores da Varig. "Até agora não ocorreram reuniões para discutir o projeto de recuperação propriamente", queixa-se um credor. O projeto foi apresentado em 12 de setembro, cumprindo o curto prazo legal de 60 dias. Sem acesso a crédito novo e com sua geração operacional de caixa em queda, desde que entrou em recuperação a companhia aérea não tem pago o aluguel de seus aviões. A conta na semana passada, acumulada desde junho, já estava em mais de US$ 72 milhões. E o risco de perda de boa parte de sua frota de 78 aviões não cessa. "A lei é clara e não está sendo aplicada: a empresa que não consegue pagar as suas despesas correntes dentro da recuperação deve ir à falência", diz o mesmo advogado, que não tem autorização de seus clientes para fazer comentários públicos. Nos Estados Unidos, as companhias fazem um colchão de liquidez antes de ingressar com o pedido de recuperação judicial, justamente para fugir do sufoco da escassez de crédito. No caso da Varig, a decisão foi tomada às pressas para evitar a retomada de onze aviões pela ILFC e não houve tempo para se preparar. Já em recuperação, em julho, advogados e executivos da Varig bateram na porta de vários bancos em busca de empréstimo novo. Sem sucesso, no fim de agosto conseguiram costurar um acordo com o fundo americano MatlinPatterson para compra da subsidiária de carga VarigLog. A operação tinha como único propósito dar liquidez à companhia-mãe. A solução encontrada esbarrou nas eternas resistências internas de parte da Fundação Ruben Berta e também dos funcionários que, como credores na recuperação, agora têm poder de decisão. A batalha por caixa continuou e a solução mais recente é aquela apadrinhada pelo BNDES, que surgiu há dez dias. O banco vai financiar investidores interessados em adquirir a VarigLog e a outra subsidiária de manutenção, a VEM, por meio de uma empresa de propósito específico. Os investidores que até agora se candidataram formalmente foram a aérea estatal portuguesa TAP, o MatlinPatterson e a Ocean Air, do empresário German Efromovich. Mas a solução definitiva para a falta de caixa tem tardado tanto, que o problema só cresce. A primeira fase do plano do BNDES prevê uma injeção de US$ 62 milhões - um terço com recursos de investidores e dois terços financiados pelo banco - para pagamento das empresas de leasing. Mas alguns cálculos indicam que a real necessidade de caixa da Varig já é de US$ 200 milhões. Para pagar a dívida com arrendadores e fazer a manutenção de 15 dos seus 78 aviões, que estão parados por falta de motores e outras peças. A própria empresa, no projeto de recuperação, afirmou que precisaria de US$ 60 milhões e um prazo de três a seis meses para tornar operacionais os 14 aviões que estavam parados na época (setembro). Avião no chão representa receita de menos e custo a mais. Nas reuniões com BNDES e credores na semana passada, a direção da Varig chegou a externar que gostaria de usar ao menos uma parte do dinheiro que vai entrar para consertar alguns aviões. Mas o tema é polêmico, porque os arrendadores não abrem mão de receber e os administradores argumentam que precisam dos aviões voando para recuperar a receita. O resultado operacional da empresa está em franca queda. De janeiro a agosto, o resultado da atividade foi de apenas R$ 28 milhões. Um ano antes, havia sido de R$ 129 milhões. Sua participação de mercado vai pelo mesmo caminho. Na quinta-feira passada, o presidente do conselho de administração da Varig, David Zylbersztajn, esboçava otimismo com a possibilidade de finalmente avançar além da discussão de curto prazo e aprovar o plano de recuperação na assembléia de credores que estava marcada para hoje. Dizia ele que seria muito positivo, mesmo que a aprovação fosse feita com ressalvas. Mas na tarde de sexta-feira a Justiça do Rio adiou a assembléia para o próximo dia 7, para dar mais tempo para que se desenhe o socorro de curto prazo costurado pelo BNDES. A maioria dos credores já esboçou descontentamento com o plano de recuperação apresentado pela companhia em 12 de setembro. As duas facções que representam trabalhadores apóiam duas propostas distintas. A associação Trabalhadores do Grupo Varig desenvolveu um plano próprio. Enquanto o sindicatos de aeronautas e aeroviários declaram apoio a um plano apresentado pelo empresário Nelson Tanure. "Plano mesmo só existe um. Os outros dois são propostas que colocam objeções ao nosso", diz Zylbersztajn. Na visão de alguns credores da área de leasing consultados pelo Valor, o plano elaborado pela direção da Varig com a assessoria do banco UBS e da consultoria Lufthansa é "superficial" e não tem condições de ser votado. "Não é vago", rebate Zylberszjtajn. "O plano coloca os princípios para a viabilidade da empresa", argumenta. De acordo com ele, dentro do curto prazo de que dispunham, os executivos concluíram que o plano não poderia ser fechado. Teria que ser um bom ponto de partida, sujeito a mudanças sugeridas nas discussões com credores. O presidente do conselho acha que ainda dá para cumprir o prazo de seis meses para se aprovar tudo. Pela lei, depois de dezembro, a Varig deveria perder a proteção contra protestos de títulos e pedidos de falência. "Hoje aumentaram muito as chances de aprovação do plano. Há um mês eu considerava isso muito difícil."