Título: Novos testes podem descartar aftosa no PR
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 31/10/2005, Agronegócios, p. B10
Crise Sanitária Demora para a divulgação de resultados decorre da semelhança de sintomas com outras doenças
Dois fatores técnicos podem explicar a demora para a conclusão dos exames em bovinos do Paraná que podem estar infectados com o vírus da aftosa. De acordo com especialistas ouvidos pelo Valor, a dificuldade de isolar o vírus nas amostras e a semelhança dos sintomas clínicos (externos) com outras doenças vesiculares, como estomatite vesicular e rinotraqueíte infecciosa, comprometem a finalização dos resultados. Inicialmente, previa-se a divulgação desses resultados na semana passada, mas com a demora isso só deve acontecer ao longo desta semana. José Carlos Morgado, gerente técnico de vacinas para grandes animais da Merial, explica que os sintomas dessas doenças vesiculares são muito semelhantes quando atingem estágios mais avançados, e que mesmo a coleta de material de forma inadequada inviabiliza o diagnóstico. "Quando há pouca quantidade de vírus na amostra, são necessários testes complementares, que levam mais tempo para serem concluídos". Para Morgado, a possibilidade de que os animais estejam com uma doença vesicular, e não com aftosa, é real. Na semana passada, a Secretaria de Agricultura do Paraná informou que os testes, realizados a partir de amostras de epitélio (tecido que se solta da afta) e mucosa da língua e do esôfago dos animais não foram conclusivos. Alvarez Cherubini, chefe da divisão de sanidade animal do Departamento de Fiscalização do órgão, diz que nas amostras não foi possível isolar o vírus para os exames de cultura (que permitem saber o tipo e o subtipo do vírus). Por isso, técnicos já haviam extraído novas amostras dos animais para submeter a exames complementares. Na sexta-feira, o Ministério da Agricultura informou que necropcias e coleta de órgão poderão ser refeitas. O relatório do Ministério da Agricultura enviado à Organização Internacional de Saúde Animal (OIE) na semana passada informava a identificação, no dia 18, de "suspeita de doença vesicular" em 21 animais das cidades de Amaporã (4), Grandes Rios (3), Maringá (5) e Loanda (9). Maristela Pituco, responsável técnica pelo Laboratório de Viroses de Bovídeos do Instituto Biológico (vinculado à Secretaria de Agricultura de São Paulo), afirma que nas três doenças o animal apresenta úlceras na boca e nas patas, febre e emagrecimento. Mas, quando o animal fica pouco tempo exposto ao vírus, apresenta pouca carga viral nas amostras, o que impede o laboratório de identificá-lo. "No caso do Mato Grosso do Sul, os animais estavam tão contaminados que no primeiro teste foi possível fazer a identificação". Ela descarta a hipótese de falso diagnóstico das doenças nos teste. "Nos exames laboratoriais não há como confundir", afirma a especialista. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Agricultura do Paraná, há preocupação de que a demora na divulgação da conclusão dos testes provoque atrasos na campanha de vacinação contra aftosa no Estado, prevista para começar amanhã. Há receio de que pelo menos parte dos pecuaristas adie a vacinação até a confirmação ou não dos focos. Até porque se eles forem confirmados, o sacrifício de animais será inevitável.