Título: Clubes na contramão do futebol-empresa
Autor: Patrick Cruz
Fonte: Valor Econômico, 04/11/2005, Empresas &, p. B2

Gestão Com dívidas que superam o patrimônio, o Vitória já avalia a possibilidade de deixar de ser uma S.A.

"A melhor experiência de um clube de futebol brasileiro no mundo dos negócios começou em 10 de fevereiro de 1998, data de fundação do Esporte Clube Bahia S/A." Este é um dos textos de apresentação na página oficial do Bahia, o time de maior torcida das regiões Norte e Nordeste, vencedor do Campeonato Brasileiro de 1988 e da Taça Brasil de 1959, competição que equivalia ao título nacional até a década de 60. "A melhor experiência de um clube de futebol brasileiro no mundo dos negócios" disputará em 2006 a nada glamourosa terceira divisão do Campeonato Brasileiro, tem um volume de dívidas que supera seu patrimônio e terá direito no próximo ano a apenas 25% da receita que os clubes da primeira divisão têm pelas transmissões de jogos pela TV. Bahia e Vitória, os dois times mais populares da Bahia, foram os pioneiros, no fim da década passada, na adoção dos preceitos do futebol-empresa no Brasil. O primeiro fechou acordo com a Ligafutebol S/A, empresa do grupo Opportunity que garantiu aporte de R$ 12 milhões ao clube. O Esporte Clube Vitória, por sua vez, selou negócio com o argentino Exxel Group em 2000, que levou à criação do Vitória S.A., em transação de US$ 13 milhões. Coincidentemente (segundo os defensores da dupla) ou não (para os críticos), o rebaixamento de ambos para a terceira divisão foi simultâneo. Pelo menos um deles já pensa em abandonar a bandeira do pioneirismo e encerrar a sociedade anônima. No ano passado, o Vitória fechou acordo para recomprar por US$ 7 milhões toda a fatia de 50,1% do Exxel no Vitória S.A. O clube pagou US$ 2 milhões à vista e dividiu o restante do débito em cinco parcelas anuais. Até lá, amadurece-se a idéia de fechar a empresa, defendida pelo presidente do Vitória, Ademar Lemos. "Não foi bom", resume ele sobre o negócio com o fundo de investimento argentino. "A S.A. tem que ser mantida porque ainda estamos pagando a dívida com o Exxel, mas vamos ver o que se pode fazer. Talvez uma fusão entre o Vitória S.A e o clube." Como o débito ainda não foi quitado, o Exxel mantém quatro dos sete assentos no conselho de administração do Vitória S.A. Como em uma típica conversa sobre futebol, todos têm argumentos sobre a crise da dupla Ba-Vi - e todos os argumentos são irrefutáveis, aparentemente. Na visão de administradores, o fechamento da S.A pode ser um retrocesso, mas Lemos usa sua própria experiência para defender seu ponto de vista. "Quando assumi a presidência do Vitória pela primeira vez (em 1987, quando tinha apenas 27 anos), o clube devia US$ 4,7 milhões. Quando saí de lá, em 1990, tinha US$ 14 mil em caixa. As dívidas do Vitória nunca foram impagáveis", disse. Dados do balanço do ano passado apresentam a dificuldade do rubro-negro baiano. O crescimento de 16% da receita, que passou de R$ 27,4 milhões para R$ 31,8 milhões, não foi suficiente para impedir uma perda de R$ 6 milhões no exercício. O prejuízo acumulado é de praticamente R$ 50 milhões, o que o deixa com patrimônio líquido negativo em R$ 8,4 milhões. Assim como o rival Bahia, o Vitória, por ter sido rebaixado à terceira divisão, terá direito a apenas 25% da receita de transmissões de jogos pela TV que têm os times da divisão principal do campeonato brasileiro. O volume de dívidas e a queda de receita que se avizinha levarão ao corte de 40% do quadro de funcionários até o fim do ano, que é de 260 atualmente. A folha de pagamento do elenco de jogadores, a principal despesa do clube, deverá ser limitada a uma fatia entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por jogador, segundo Lemos. Para contrabalançar o período de vacas magras, o Vitória busca acelerar a aproximação do grupo Luso Arenas, ligado ao Banco Espírito Santo, que quer construir uma arena multiuso em Salvador e explorá-la com a marca do Vitória. O projeto total tem custo de US$ 70 milhões. Lemos acredita que o fato de Bahia e Vitória terem sido rebaixados no mesmo ano foi coincidência e diz que a parceria com um grupo financeiro foi pouco salutar. "Como um banco de investimentos, a cultura deles é essa. O negócio deles é empresa, mas acredito que não foi analisado a fundo o fato de que a carga tributária aumentaria. Como clube, há isenções", diz. O presidente não deixa, entretanto, de fazer um mea culpa por seu rubro-negro: "com dinheiro na mão, o clube quis acelerar as coisas, quis fazer em cinco anos o que poderia fazer em 20." No Bahia, que se notabilizou nos últimos anos pela alta média de público mesmo com o time disputando a segunda divisão, o crescimento vertiginoso da dívida e o acordo com o Opportunity estão sendo questionados na Justiça. A promotora Rita Tourinho, do Ministério Público Estadual, foi designada para analisar os documentos entregues por um grupo de oposição do Bahia que aponta sinais de irregularidades no acordo do clube com o banco, como a adição de itens no contrato efetuada após a aprovação da parceria pelos membros do conselho deliberativo. A dívida do Bahia saltou dos R$ 6 milhões da época da assinatura do contrato com o Opportunity para R$ 48 milhões, segundo o balanço do último ano. Sua receita cresceu 59% no ano passado, de R$ 14 milhões para R$ 22,3 milhões, mas o patrimônio líquido permanece negativo em R$ 29,5 milhões. A dívida de curto prazo é superior a R$ 20 milhões - o índice de liquidez corrente, que apura a capacidade de uma empresa de saldar seus débitos de forma rápida, é de apenas 0,15. Segundo especialistas, o desejável é que esse índice seja de pelo menos 1,5. O Bahia tem eleição marcada para 7 de novembro. O Valor buscou contato com o presidente interino do clube, Petrônio Barradas, por mais de uma semana, mas não recebeu retorno das chamadas nem dos recados deixados na secretaria do clube e nos telefones celulares de Barradas e da assessoria de imprensa. No Opportunity, a fonte designada para entrevista estava em viagem e não poderia se pronunciar, segundo a assessoria de imprensa.