Título: Contribuição do setor externo para alta do PIB será quase nula em 2005
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 07/11/2005, Brasil, p. A3
O setor externo ajudou bastante o crescimento nos últimos três anos, mas em 2005 a história é diferente. Neste ano, a contribuição do comércio exterior de bens e serviços para a expansão do PIB deve ser ligeiramente positiva. As exportações ainda aumentam a um ritmo significativo, mas inferior ao de 2004, enquanto as importações crescem uma velocidade expressiva. O grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) estima expansão de 3,6% do PIB em 2005, dos quais 0,2 ponto percentual virá do setor externo. Para 2006, a contribuição deverá ser ligeiramente negativa, diz Caio Prates, da UFRJ, que não vê motivos para preocupação. Em 2004, nota a demanda doméstica - o consumo das famílias e do governo e o investimento - já havia comandado a expansão do PIB. A economia cresceu 4,9% no ano passado, dos quais 3,8 pontos percentuais se deveram à demanda interna. O setor externo respondeu por 1,1 ponto, um número razoável, mas inferior ao registrado em 2002 e 2003. "A contribuição do setor externo para o PIB está diminuindo e a tendência é que fique cada vez menor", diz Sérgio Vale, da MB Associados. Para ele, o setor externo vai responder por 0,8 ponto dos 3,3% previstos de crescimento para este ano, previsão mais otimista que a da UFRJ, mas mesmo assim abaixo da do ano passado. A Tendências Consultoria prevê contribuição ligeiramente positiva, para um crescimento total de 3,2%. O desempenho do setor externo tem sido melhor que o projetado no início do ano, quando a aposta era em contribuição negativa. A questão é que as exportações surpreenderam. Apesar do desempenho ainda pujante da balança comercial, Vale explica que o ritmo de crescimento das quantidades exportadas e importadas está em desaceleração. Para o cálculo do PIB, o que conta são os volumes exportados e importados de mercadorias e serviços (como transportes e seguros). Em 2004, o volume das exportações de bens e serviços cresceu 18% e o de importações, 14,3%. Para este ano, a UFRJ prevê aumento de 10% das primeiras, e de 12% das segundas. Como as exportações têm peso maior no PIB que as importações, a contribuição do setor externo será positiva em 0,2 ponto. As exportações de bens e serviços equivalem a 18,1% do PIB, e as importações, a 13,3% do PIB. As projeções da UFRJ mostram contribuição de 3,4 pontos percentuais da demanda doméstica para o crescimento, número próximo aos 3,8 pontos de 2004. Segundo Prates, se confirmada essa projeção, isso mostra que o impacto da alta dos juros sobre a atividade foi relativamente moderado, em grande parte devido ao fato de o crédito continuar crescendo, apesar do aperto monetário. Ele lembra, porém, que o número fechado para o ano mascara o fato que a demanda doméstica estava em firme crescimento no segundo semestre de 2004, e que a elevação dos juros interrompeu o processo. Além disso, a avaliação é que houve desaceleração no terceiro trimestre. Para o ano que vem, Prates avalia que o setor externo vai contribuir negativamente para a expansão do PIB, ainda que aposte em desvalorização gradual do câmbio. Ele vê aumento de 8,5% das exportações e de 12,5% das importações, em cenário de demanda interna forte. Com isso, o PIB deve crescer 4,5%, dos quais 4,65 pontos viriam da demanda doméstica, e -0,15 ponto, do setor externo. Desde 1999, a contribuição do setor externo e da demanda interna caminham geralmente em sentidos opostos, afirma Prates. Segundo ele, a principal explicação para o fraco desempenho da demanda doméstica entre 1999 e 2003 (à exceção de 2000) é que o ajuste das contas externas foi impulsionado por desvalorizações cambiais abruptas. "Pelo seu impacto inflacionário, elas produziram queda dos salários reais e levaram o BC a aumentar os juros para conter a inflação." "De 1999 para cá, só houve crescimento significativo da demanda doméstica e do PIB em períodos de estabilidade do câmbio, como em 2000, ou de apreciação cambial, como em 2004 e 2005." Para Prates, isso não significa que seja impossível para o Brasil ter, ao mesmo tempo, desvalorização do câmbio e crescimento. Mas isso pressupõe uma alta moderada do dólar. Para ele, a volta do câmbio para R$ 3 ou mais em prazo relativamente curto, como defendem alguns analistas, "produziria certamente interrupção do crescimento, pelos seus efeitos negativos sobre a inflação, os juros e os salários reais". Com o setor externo contribuindo negativamente para o crescimento em 2006, a expansão do PIB vai ficar obviamente a cargo da demanda doméstica. Visto de hoje, o panorama é razoável, uma vez que os juros devem continuar em queda, a inflação parece controlada e a aposta é que haverá continuidade da recuperação do emprego e da renda, como diz o economista Guilherme Maia, da Tendências. A maior parte dos analistas não faz projeções sobre a contribuição do setor externo para o crescimento no terceiro trimestre. O banco JP Morgan é uma das exceções, estimando que o impacto será nulo em relação ao segundo trimestre. Como a demanda interna foi fraca no terceiro trimestre, o resultado deverá ser estabilidade do PIB nessa mesma comparação. Segundo Callegari, o ritmo das exportações ainda é forte, mas as importações também crescem de forma expressiva, estimuladas pela valorização do câmbio. Na comparação entre o terceiro trimestre deste ano com igual período de 2004, o JP Morgan projeta crescimento de 2,1% do PIB, com contribuição de 0,7 ponto do setor externo. Para Callegari, o consumo das famílias e do governo também deve aumentar um pouco, mas o investimento cairá, devido ao fraco desempenho da construção.