Título: Dúvidas na atuação do Tesouro no câmbio
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 07/11/2005, Finanças, p. C2

Os números do fluxo financeiro no câmbio contratado em outubro não deixam dúvidas - a atuação do Tesouro no câmbio no mês passada foi pequena, senão nula. Saídas de US$ 1,872 bilhão podem ser explicadas somente por um fluxo financeiro verdadeiro, como por exemplo remessas de lucros e dividendos e pagamentos de dívida de empresas e bancos. São bem menores dos que os US$ 4,88 bilhões em agosto e os US$ 4,322 bilhões de setembro, quando o Tesouro entrou comprando com mais força. As compras do Tesouro aparecem como saída financeira. No mês passado, o Tesouro poderia ter comprado US$ 1,4 bilhão, mas cada vez mais analistas avaliam que ele não comprou nada. Se isso for verdade, terá espaço para compras estimadas em US$ 1,6 bilhões neste mês -o Tesouro só pode comprar dólares no mercado de câmbio para pagamento de dívida externa (principal e juros) que vence nos próximos 180 dias. Mas a opção poderá ser, novamente, por não comprar nada, deixando espaço para a atuação do Banco Central, que, aliás, continua agressiva em novembro, até mais do que no mês passado. As mesas estimam compras de US$ 300 milhões por dia nos três primeiros dias úteis do mês, o que já soma mais de US$ 900 milhões, portanto. A continuar nesse ritmo, o BC vai comprar mais de US$ 5,5 bilhões no mercado de câmbio neste mês, na comparação com os US$ 3,6 bilhões de outubro. O BC vai continuar comprando ao menos para cobrir as necessidades de pagamento de dívida ao FMI, de US$ 7,7 bilhões em 2006 e de US$ 8,7 bilhões em 2007, avalia Mário Mesquita, economista-chefe do ABN-AMRO. As compras ainda mais agressivas do BC não impediram a continuidade da queda do dólar no início deste mês. Na sexta-feira, a cotação foi parar nos R$ 2,2120, o menor nível desde 30 de abril de 2001. Os exportadores, segundo o mercado, ainda não teriam entrado com recursos neste mês - são os movimentos fortes de compras de dólar futuro pelo investidor externo aproveitando a queda nas taxas de juros brasileiras que têm feito o dólar cair neste mês. Os exportadores devem entrar no mercado nesta semana, acreditam os analistas. No ano, os exportadores são os principais responsáveis pelo fluxo positivo de câmbio. O chefe da mesa de câmbio do ING, Alexandre Vasarhelyi, lembra que o fluxo positivo no câmbio contratado até outubro é impressionante: US$ 13,7 bilhões, na comparação com os US$ 4,68 bilhões de todo o ano de 2000, com os fluxos negativos de US$ 2,962 bilhões em 2001 e de US$ 12,989 bilhões em 2002 e positivos em US$ 718 milhões e US$ 6,36 bilhões em 2003 e 2004, respectivamente.

Dólar vai ao menor nível desde abril de 2001

No final de ano, há uma tendência de aumento nas remessas de lucros e dividendos, nas importações e nas viagens ao exterior, o que tende a aumentar o fluxo de saídas de recursos no câmbio contratado, lembra Wagner Azevedo, diretor de risco da Ático Asset Management. Mas, este ano tem sido bem atípico, lembra ele. Ele acredita que a tendência no mais longo prazo é de as taxas de juros internas brasileiras continuarem a cair, enquanto as taxas básicas de juros nos Estados Unidos tendem a subir. A diferença entre as taxas internas brasileiras e as externas vai se reduzir e os ganhos com o chamado "carregamento" - tomar linhas a 4% ao ano e investir em reais a 15% ou 16%, ganhando a diferença - vai perder sua força. Por enquanto, no entanto, os investidores que montam esse tipo de posição têm ganhado muito dinheiro, ainda mais considerando-se a valorização do real de 16,65% ao ano. O aumento das posições prefixadas dos investidores externos tendem a derrubar mais os juros futuros e estimular mais compras. Na sexta-feira, o contrato de vencimento em janeiro de 2007 foi a 17,339% ao ano, queda na comparação com os 17,558% ao ano do final do mês passado. Os contratos de vencimento em abril de 2010 foram a 15,976% ao ano, na comparação com os 16,306% ao ano do final de outubro. As quedas podem ficar ainda maiores se as previsões de atividade econômica mais fracas se confirmarem. O mercado já fala em retração de 1,9% na produção industrial em setembro e de outra queda de 1,6% em outubro. Nos EUA, os dados de emprego divulgados na sexta-feira também decepcionaram, mostrando uma retomada menos forte do que a esperada na economia pós-furação. O total de novos empregos criados em outubro nos EUA foi de 56 mil, na comparação com os 120 mil esperados pelo mercado. Apesar disso, os juros dos títulos do Tesouro dos EUA de dez anos tiveram mais um dia de alta na sexta-feira e foram a 4,66% ao ano. O risco-Brasil terminou a semana em 355 pontos básicos, o mesmo nível do dia anterior.