Título: Fiesp se aproxima de Lula sem encobrir insatisfação
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 10/11/2004, Brasil, p. A-5
A festa que o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, promoveu na noite de segunda-feira para apresentar a nova diretoria da entidade foi encenada como uma exibição suntuosa do seu prestígio político e da aliança que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta construir com a elite do empresariado nacional desde a campanha eleitoral de 2002. Lula acredita que nunca houve uma comunhão tão grande entre os interesses dos empresários e os do governo, e levou dez ministros à festa para demonstrar isso de forma ostensiva. Mas a noite de segunda-feira também ofereceu evidências de que a aliança do governo com o empresariado é mais frágil do que ele gostaria. Quando foi anunciado o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), os empresários saudaram o tucano com a ovação mais demorada da noite. Alckmin é visto como o mais provável candidato do PSDB nas eleições de 2006, quando Lula concorrerá a um segundo mandato. Lula respondeu depois em seu discurso, quando pediu um esforço para impedir que a "mesquinhez" ponha "as eleições de 2006 acima dos interesses que este país tem". Como Lula não cansa de repetir, seu governo ampliou de forma significativa os canais de diálogo com os empresários. Eles participam ativamente de inúmeros conselhos e grupos de trabalho. Grande parte das medidas de política industrial que Lula anunciou com pompa em abril não saiu do papel, mas algumas já estão sendo implementadas. Mesmo assim, ainda há muita insatisfação. Pouco antes da festa de Skaf, empresários reunidos pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP) passaram três horas num hotel de São Paulo com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci. A portas fechadas, o grupo fez críticas à política econômica do governo e Palocci respondeu que não pensa em modificar nada. Vários dos empresários que o ouviram foram depois à festa de Skaf. Na saída, os convidados receberam exemplares da nova edição da revista da Fiesp, com um artigo em que o presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, principal articulador da ascensão de Skaf na entidade, apresenta as reivindicações do grupo. Steinbruch diz que o Conselho Monetário Nacional (CMN) "precisa de reformulação para ser mais representativo". Ele quer que empresários voltem a ter assento ali. Steinbruch pede a redução dos juros e uma "política cambial mais eficiente e segura". Em vez de deixar o câmbio solto, o que ajuda a conter a inflação, ele quer que o governo intervenha no mercado, o que aumentaria os ganhos dos exportadores. Para o cientista político Renato Boschi, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), que há anos estuda as relações entre o governo e o empresariado, a manutenção da política econômica ortodoxa afeta qualquer tentativa de diálogo. "Enquanto as políticas restritivas forem mantidas, o diálogo sempre será relativo e será mais difícil conter as insatisfações apenas com medidas pontuais", avalia.