Título: Salário de servidor agora pode ser pago na cidade
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 10/11/2004, Finanças, p. C-4
Pagar o salário dos 415 servidores públicos municipais de Autazes era uma operação de guerra. Um enviado da prefeitura ia até Manaus, tirava das agências dos bancos federais e estadual (BEA, privatizado em 2003) os R$ 300 mil para pagar a folha, fretava um avião bimotor e trazia todo o dinheiro, em espécie, em uma pasta. Uma equipe de seguranças era contratada todo mês para acompanhar o emissário com a pasta de dinheiro, desde Manaus até a prefeitura, protegendo a operação de assaltos até que todos tivessem recebido seus vencimentos. "Essa estrutura toda custava cerca de R$ 3 mil", relata o vice-prefeito da cidade Percilei Pantoja (PFL). Autazes é uma cidade banhada pelo rio Autazes-Açu, afluente do rio Madeira, um dos principais do Amazonas. Há três alternativas de acesso, a partir da capital Manaus: por estrada de terra, em que os 94 km podem ser transcorridos sem problemas, em automóvel apropriado, desde que não chova, senão fica inviável; de barco são 12 horas de viagem; e de avião - que tem que ser fretado ou particular, não há linhas regulares - é meia hora.
Depois de receber seus salários, a maior parte dos funcionários públicos poderia gastar ali mesmo, mas como a oferta de produtos era limitada, muitos iam para Manaus gastar com produtos que não encontravam em Autazes ou mesmo depositar na rede de agências da capital. Era o que fazia também a maior parte dos comerciantes e agropecuaristas locais. Quem não tinha disponibilidade de locomoção - ou seja, a maioria da população de 26,5 mil habitantes, segundo o IBGE - pedia ou pagava alguém que estivesse de partida para Manaus, para fazer compras, pagar contas ou fazer depósitos . "Tinha uma pessoa aqui que cobrava de R$ 10 a R$ 20 para pagar contas em Manaus. Às vezes o dinheiro sumia, o cara era roubado", conta o vice-prefeito. Desde que o Banco Postal se instalou na cidade, em 2002, a prefeitura colocou ali a folha de pagamentos e o salário dos funcionários públicos municipais passou a ser depositado na conta de cada um, que pode movimentar ou sacar tudo e gastar ali mesmo, pondo fim à preocupação e aos gastos com segurança. O Banco Postal tem em Autazes hoje 2,8 mil contas abertas, 550 cartões de débito e crédito distribuídos e um caixa eletrônico instalado ao lado de um dos supermercados. Mês sim, mês não, Marcelo Barroso, o superintendente do Banco Postal em Manaus, visita Autazes e coleta cadastros para abertura de contas e pedidos de empréstimos. Os cadastros têm que ser encaminhados à agência do Bradesco para análise. Mas toda vez que chega na cidade, Marcelo sai de lá com pelo menos 100 contratos com pedidos de empréstimos. As pessoas o param nas ruas para reclamar, se explicar ou pedir novos empréstimos. Marcelo e sua equipe também já venderam 40 seguros de vida popular do Bradesco (que custa pouco mais de R$ 9 por mês). O grande desafio agora é convencer as pessoas a investir e guardar o dinheiro que sobra no banco. "As pessoas aqui guardam o dinheiro debaixo do colchão ou sobre o assoalho" (no Amazonas assoalho é o forro da casa). Mas se por um lado a população de Autazes está se beneficiando da disponibilidade de serviços financeiros, até então uma novidade para muitos que nunca tiveram conta corrente na vida, por outro eles também estão experimentando problemas bem conhecidos de quem tem conta em banco. Por exemplo, o abastecimento de dinheiro no caixa eletrônico do Bradesco na cidade não foi feito no final de semana da véspera das eleições, por falha da empresa que presta esse serviço. Muita gente ficou sem dinheiro o final de semana inteiro. O comerciante Washington Canto, dono da loja WR Confecções, reclamava da alta taxa de juros dos empréstimos e o advogado Alberto Simonetti, que mora em Manaus mas freqüenta Autazes semanalmente para visitar a família, se queixa da falta de um banco de investimentos no local, para financiar a produção pecuária e leiteira, que é o forte da cidade. O Bradesco só faz operações de varejo. De qualquer forma, depois que o banco se instalou em Autazes, os comerciantes se animaram e passaram a investir na cidade, de olho nessa renda que estava circulando por ali. O número de lojas de Autazes multiplicou-se de 10 para 36 desde então. O município ganhou um novo supermercado, que obrigou o antigo a incrementar sua loja, passando a aceitar cartão de crédito. Ganhou também loja de materiais de construção, de eletrodomésticos, roupas, autopeças, bicicletas, motos e um novo hotel. Autazes não ficou independente da verba federal e estadual que na verdade é mais de 90% de sua arrecadação de R$ 12,5 milhões. Mas o desenvolvimento econômico se traduziu em crescimento de 90% dos recursos arrecadados pela prefeitura com impostos como IPTU e ISS, taxas de serviços e concessão de alvarás, diz o secretário de Finanças Wanderlan Ramalho. Agora a prefeitura está tentando trazer para o município uma fábrica de laticínio para produzir mussarela de búfala, iogurte e leite pasteurizado para a merenda escolar, aproveitando a produção de leite no município, uma das maiores do Estado, com aproximadamente 50 mil cabeças (75% de bovinos). (JR)