Título: A medíocre produtividade britânica
Autor: Martin Wolf
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2005, Opinião, p. A11

Reino Unido enfrenta problemas com infra-estrutura e com capacitação de trabalhadores

Gordon Brown, o ministro das Finanças do Reino Unido, deu-se conta da importância da produtividade desde o início. Agora, oito anos mais tarde, podemos começar a avaliar o desempenho conseguido. Infelizmente, como revela a nova pesquisa econômica da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o resultado foi medíocre. A produtividade determina a riqueza das nações. A proporção da população economicamente ativa é também importante, bem como o número de horas trabalhadas por cada pessoa. Mas nenhum fator é tão importante quanto a produtividade. Além disso, as sociedades podem se distinguir quanto ao valor que atribuem a trabalho versus lazer ou a dedicação exclusiva das mães a seus filhos em contraste com uma ativa participação feminina nos mercados de trabalho. Mas todos querem mais por menos. Dito isso, qual é o histórico britânico? Em primeiro lugar, o desempenho macroeconômico geral tem sido um "paradigma de estabilidade". Segundo, o Produto Interno Bruto (PIB) britânico per capita subiu do último para o terceiro lugar entre o grupo dos sete países mais avançados, atrás dos EUA e do Canadá, embora apenas muito pouco acima da mediana entre todos os membros da OCDE. Terceiro, a principal explicação para a eliminação do atraso em relação ao PIB per capita das grandes economias da Europa Continental foi o incremento na utilização de mão-de-obra. Quarto, não há sinal de uma retomada no crescimento da produtividade britânica, em média de aproximadamente 2% ao ano entre 1995 e 2004. Quinto, o crescimento da taxa de produtividade britânica nesse período ficou próxima à mediana entre todos os países membros da OCDE e abaixo da taxa americana, de 2,5% ao ano. Sexto, a produção horária nos EUA, França, Alemanha e Itália continua substancialmente acima dos níveis no Reino Unido. Na OCDE como um todo, o Reino Unido está na 15ª posição entre 27 países. Sétimo, embora a utilização de mão-de-obra no Reino Unido esteja bem acima dos níveis na França, Alemanha e Itália, continua abaixo dos níveis nos EUA, Canadá e Austrália. A análise de tendências de desempenho da produtividade torna o quadro mais nítido. A produção horária do setor empresarial cresceu a 2% ao ano na década de 80, saltou para 3,2% entre 1990 e 1996, caiu para 2,2% entre 1996 e 2001, e então subiu para 2,6% entre 2001 e 2004. De novo, uma média móvel cobrindo cinco anos de produção per capita atingiu um pico de 3% de crescimento ao ano até meados de 1996, mas está atualmente em apenas 1,4%. É muito cedo para afirmar que o desempenho básico está piorando. Mas não está melhorando. Por que estaria ocorrendo isso? Forte regulamentação, pelo menos em mercados de produtos, é uma explicação implausível, uma vez que a OCDE classifica o Reino Unido como o segundo melhor país entre todos os membros da OCDE nesse quesito.

País precisa melhorar a qualidade do ensino, em todos os níveis, e estimular vigorosamente a competição em todas as áreas da economia

Uma segunda e mais plausível razão pode ser a forte alta nos gastos públicos em termos de percentual do PIB. É verdade que Finlândia, Suécia e Áustria registraram, todas, crescimento de produtividade mais rápido que o Reino Unido no curso da década passada, apesar de suas cargas tributárias mais pesadas. Mas a crescente participação dos gastos públicos no PIB deve impactar adversamente o crescimento da produtividade, pois estatísticas (é verdade, imperfeitas) da produtividade do setor público revelam uma queda. Uma terceira explicação é a baixa taxa de investimento no Reino Unido, em torno de 17% do PIB. Mas seu impacto não deveria ser exagerado, pois os investimentos explicam apenas cerca de 40% do crescimento da produtividade do setor empresarial desde meados da década de 60. Uma quarta razão são os baixos níveis de capacitação dos trabalhadores. O Reino Unido está na quinta posição no G-7 em termos da proporção de adultos acima da capacitação mínima e na 17ª posição na OCDE como um todo. A OCDE sustenta que as diferenças em "capital humano" explicam 10 pontos percentuais do déficit de produtividade em relação à Alemanha. Uma quinta explicação possível é infra-estrutura inadequada. O congestionamento nas rodovias é o pior na velha União Européia de 15 países, ao passo que quase 25% das estradas troncais ficam congestionadas por mais de uma hora por dia, contra apenas 15% na Holanda. Isso não vai mudar, uma vez que investimento fixo bruto geral do governo foi menor, como percentual do PIB, do que em qualquer outro país membro do G-7 entre 2000 e 2004. Infra-estrutura inadequada de transportes pode ser extremamente importante, uma vez que os maiores diferenciais de crescimento da produtividade entre os EUA e a UE estão na distribuição varejista e atacadista. Uma sexta explicação é o desempenho medíocre em inovação. Os gastos britânicos em pesquisa e desenvolvimento estão entre os mais baixos no G-7 como percentual do PIB. Esses investimentos em P&D também caíram de bem acima da média da OCDE em 1981 para bem abaixo dela, estando em torno de 1,9% do PIB. O número de patentes é também deficiente, segundo os padrões de outros países membros da OCDE, embora isso seja também verdadeiro para a Austrália, que tem um excelente histórico de produtividade. Uma análise mais detida mostra, porém, que o Reino Unido está muito bem em outras áreas de propriedade intelectual, como em registro de marcas, onde os pedidos de homologação de registros britânicos na UE estão entre os mais altos por milhão de pessoas. A base científica também continua entre as mais vigorosas: por exemplo, o número de publicações científicas per capita é o mais alto no G-7. O desempenho de serviços com uso intensivo de conhecimento e os setores criativos, como design, publicidade e relações públicas, são também notáveis. Além disso, a estrutura da economia do Reino Unido explica em larga medida seu aparentemente insatisfatório desempenho em P&D. Embora o Reino Unido tenha uma presença razoavelmente vigorosa em setores de alta tecnologia, o país tem menor presença em setores de média tecnologia. Efeitos do particular mix de setores na economia explicam de 60% a 80% do desnível em esforço de P&D em relação ao Japão, Alemanha e França. O diferencial frente à Alemanha é explicado pela indústria automobilística apenas. No entanto, esses efeitos de mix de setores não explicam as diferenças em relação aos EUA. Nesse caso, vêm à tona diferenças em esforços de P&D no setor de serviços. A conclusão ampla é de que o medíocre desempenho de produtividade britânico não é fácil de explicar. Mas isso se deve quase certamente ao fato de conhecermos tão pouco sobre o que determina o crescimento da produtividade em economias avançadas. O que precisa ser feito é tentar melhorar ainda mais as políticas governamentais em uma ampla frente: maior investimento, especialmente em infra-estrutura, é uma prioridade, assim como uma redefinição dos valores de pedágios visando melhorias na eficiência no uso do sistema rodoviário. O planejamento do uso do solo precisa melhorar. Igualmente importantes são os esforços para melhorar a qualidade do ensino, em todos os níveis; esforços são também necessários para um rigoroso estímulo à competição em todas as áreas da economia. Pelo menos igualmente importante - uma área onde o governo está agora tropeçando - é a simplificação tributária e a racionalização da regulamentação atual. O relatório da OCDE é apenas um balizamento. Ele mostra que os britânicos não descobriram o caminho para um crescimento acelerado da produtividade. O Reino Unido terá de continuar procurando.