Título: Expansão do consignado preocupa
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 09/11/2005, Finanças, p. C1

Crédito Serasa teme que aumento da alavancagem da pessoa física provoque inadimplência

O comportamento dos consumidores nas compras do Natal 2005 será observado "com lupa" pelos analistas de crédito. O objetivo é (como todo ano) antecipar uma possível onda de inadimplência no primeiro trimestre do ano seguinte. O dado novo chama-se crédito consignado. A expansão rápida e significativa dessa modalidade de crédito pessoal - saiu de R$ 6 bilhões para atingir R$ 22 bilhões em apenas um ano - pode colocar em risco as empresas de varejo no ano que vem, caso os tomadores ampliem o endividamento em linhas mais caras, como o cheque especial. Marcos Abreu, diretor da Serasa, a empresa que supre bancos e o comércio com dados sobre inadimplência, disse que está acompanhando as estatísticas do Banco Central com atenção, principalmente o movimento do cheque especial. Somado ao 13º salário, o consignado vai ampliar a alavancagem das pessoas físicas para as compras de presentes, viagens e festas. O perigo apontado por este analista é que as pessoas acumulem o crédito consignado com o cheque especial e outros financiamentos para aquisição de bens, e entrem no "vermelho" em janeiro quando vencem boa parte dos impostos e taxas (IPTU, IPVA), as primeiras prestações contraídas no final de ano e ainda matrículas e material escolares. Por enquanto, diz Abreu, "ninguém consegue mensurar" se há ou não um sobreendividamento e qual o impacto sobre a renda das pessoas. O que se pode ver, segundo ele, é um aumento das vendas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos, movimento típico de final de ano em tempos de economia mais aquecida. "Inicialmente, o crédito consignado foi utilizado para troca de dívidas (com juros elevados por outra menos onerosa). Agora, muita gente que trocou dívidas pode estar comprando bens e entrando no cheque especial, o que pode resultar em alto índice de inadimplência em 2006", afirmou Abreu ontem, no seminário "Credit Risk Conference", promovido pela seguradora Coface Brasil. Segundo este analista, entre 80 setores acompanhados pela Serasa, os de maior risco de crédito a curto prazo (três meses) são os mais ligados ao agronegócio (bovinos, algodão, milho, produção de laranja, trigo, frigoríficos de bovinos e esmagadores de laranja). A febre aftosa e a queda dos preços internacionais das principais commodities agrícolas explicam esse perfil. Além desses, tintas e vernizes e construção civil pesada também são apontados como mais arriscados - porque não há investimentos fortes nessas áreas e as chamadas Parcerias Público-Privadas (PPP), que deveriam estimular a construção, até hoje não saíram do papel. Daniel Boulet, diretor geral da Coface Brasil, aponta ainda os setores têxtil e confecções e construção civil como alvo de atenção dobrada de quem acompanha risco de crédito. Especializada em seguro de crédito interno e à exportação, a Coface assume riscos em financiamento de fornecedores de indústrias em geral. Segundo Boulet, o problema do setor têxtil e de confecções é a concorrência dos produtos chineses, que vem desafiando a indústria no mundo inteiro. Já na construção civil, o risco é a informalidade.