Título: O novo Fed, com raio de ação diminuído
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Fonte: Valor Econômico, 09/11/2005, Finanças, p. C8
Política Monetária Bernanke, o sucessor de Greenspan, deverá presidir um banco central menos poderoso
Fazer o banco central entrar em temas que realmente não são temas de banco central é um erro" Se tivermos uma meta de inflação, ficaremos um pouco constrangidos se não a cumprirmos" Bem-vindo à era do Fed reduzido. Por mais de 25 anos, a opinião pública e Wall Street reverenciaram os dirigentes do banco central da América, essas figuras míticas que presidiram o Federal Reserve. Paul A. Volcker, presidente do Fed de 1979 a 1987, lutou contra o dragão da inflação de dois algarismos, derrotando-o ao custo de uma profunda recessão. Alan Greenspan, por sua vez, foi elogiado por sua pronta resposta à quebra do mercado acionário de outubro de 1987, imediatamente após assumir o cargo de presidente. Depois disso, ele repeliu os efeitos da crise financeira da Ásia de 1997 e amorteceu o prejuízo decorrente da derrocada dos papéis do setor de tecnologia e dos atentados terroristas de 11 de setembro. Não foi à toa que ele foi chamado de segundo homem mais poderoso do mundo. O próprio Fed foi muito mais poderoso que qualquer outro banco central. As taxas de juros em todo o mundo seguiram a sua liderança. Apoiado pelo predomínio da economia dos EUA, o Fed conseguiu inundar o mundo com dólares quando surgiu a ameaça ao desastre financeiro. E a influência da instituição foi ampliada pela atenção e o respeito conferidos ao seu líder. Mas o tempo do heróico dirigente de banco central e do todo-poderoso banco central está chegando ao fim. Se o presidente do Fed que está chegando, Ben S. Bernanke, conseguir se impor, a política monetária dependerá muito menos da força de vontade, dos sentidos econômicos aguçados e de outras qualidades excepcionais do chefe do Fed. Em vez disso, Bernanke conduzirá o Fed rumo a normas coerentes e claras para a consecução das metas de inflação anunciadas publicamente - um estilo de atuação que ele rotula de "critério forçado". Ao mesmo tempo, o aumento da importância dos fluxos financeiros internacionais dificultará para o Fed exercer a influência, tanto interna como externa, que já deteve antigamente. Em particular, a dependência da América nos investidores estrangeiros para financiar os seus volumosos déficits comerciais coloca o país em uma posição muito mais frágil. "Esta é a grande diferença em relação à época em que Greenspan assumiu", disse Robert Hormats, vice-presidente do conselho do Goldman Sachs International. Portanto, tanto por escolha como por necessidade, Bernanke deverá presidir um Fed diminuído. Na verdade, ele é um dos integrantes de um grupo internacional de economistas proeminentes que chegaram à conclusão de que a coisa certa a ser feita é reduzir o raio de ação dos bancos centrais em todas as partes e fazê-los retornar à sua missão de combater a inflação. "Fazer o banco central entrar em temas que realmente não são temas de banco central é um erro", disse o professor Frederic Mishkin, da Escola de pós-graduação em Negócios da Universidade Colúmbia, um ex-funcionário graduado no Fed de Nova York e co-autor com Bernanke de alguns artigos pioneiros e instigantes sobre políticas de metas de inflação. E, dependendo das normas - não a capacidade de discernimento de formuladores de política individuais -, produzirão melhores resultados, acrescenta. "A despersonalização da política monetária é uma boa coisa." De muitas maneiras, o ímpeto pela redução dos critérios do Fed, embora sejam compartilhados por economistas de distintas denominações políticas, é largamente semelhante à campanha conservadora para limitar o ativismo de juízes. Em ambos os casos, seus defensores enxergam as mesmas vantagens: mais previsibilidade e menos incerteza. Não surpreende que a escolha de Bernanke seja vigorosamente apoiada pelo símbolo conservador e Prêmio Nobel Milton Friedman. "Acredito que ele é um homem capaz com a visão correta sobre política monetária", disse Friedman à "BusinessWeek". "A pior coisa que se poderia ter é um Fed sem restrições". Naturalmente, o Fed sob Bernanke ainda manterá todos os seus vastos poderes - a competência para imprimir dólares à vontade, poder de influência sobre bancos, e controle sobre taxas de juros de curto prazo. O edifício do Federal Reserve continuará sendo um ponto de referência imponente em Washington. E o Federal Reserve Bank em Nova York, não distante do local do World Trade Center, continuará armazenando o maior amontoado de ouro do mundo, cuja maioria é guardada para governos estrangeiros. Bernanke também poderá concluir que seus votos de moderação serão mais difíceis de cumprir quando estiver presidindo reuniões no assento do presidente, em torno da grande mesa de conferências. Se ele se deparar com uma crise financeira de alta volatilidade - como ocorreu com Greenspan em 1987, quando o mercado de ações veio abaixo dois meses depois de assumir o cargo -, Bernanke poderá se ver obrigado a tomar uma atitude mais ativista. "A política monetária sempre será central, e a capacidade de manter a confiança global será ainda mais importante no futuro", disse Lawrence H. Summers, presidente da Universidade Harvard e secretário [ministro] do Tesouro sob o presidente Bill Clinton. "Grande parte dessa responsabilidade [de manter a confiança] depende do Fed". Mesmo assim, ao menos no início, Bernanke deterá um papel bem mais discreto no palco nacional e internacional. Ele é um dos mais destacados economistas da sua geração e é dono de um espírito azedo, autodepreciativo, freqüentemente dirigido à sua indumentária fora de moda. Ele também é conhecido como um bom escutador e promotor de consenso. Ele não possui, porém, a profundidade da experiência de Washington que Greenspan comandava ao entrar no cargo. Ele tampouco tem os extensos vínculos de Greenspan com o mundo empresarial e financeiro. Isso significa que Bernanke, de 51 anos, carece ter o tipo de percepção inata dos ritmos dos mercados financeiros e comerciais que só se manifesta com a experiência. Além disso, na condição de acadêmico, concentrou a sua pesquisa em política monetária e não enveredou por áreas mais partidárias, como gastos com benefícios sociais ou com benefícios fiscais. Ele tentará manter aquele enfoque puro no banco central. Isso por sua vez poderá minar a sua influência na capital, que por muito tempo foi usada para servir à propensão de Greenspan, de tecer comentários sobre qualquer tema econômico. Mesmo que Bernanke queira se tornar um heróico dirigente de banco central, descobrirá que os mercados financeiros já não reagem tão bem. Nos 16 meses passados, o Fed tem elevado implacavelmente a taxa de juros "overnight" que controla, que no passado teriam empurrado as taxas de longo prazo para cima e reduzido o ritmo da economia. No entanto, as taxas dos títulos do Tesouro para 10 anos permanecem na maioria inalterados, sugerindo que o fluxo de recursos que migram para os EUA, vindos da China, Japão e Europa, está neutralizando as ações do Fed. O novo presidente também poderá se sentir constrangido na área de combate a crises, uma prioridade estratégica do Fed. Em crises passadas, Greenspan pôde agir de forma independente, apoiado pelo mais poderoso banco central do mundo. Mas agora, com praticamente metade do endividamento do governo mantido no exterior, Bernanke poderá ser obrigado a pedir a ajuda dos bancos centrais estrangeiros, que estão entre os maiores investidores nos títulos do Tesouro dos EUA, para gerenciar a crise. Enquanto isso, o comprometimento de Bernanke com as metas de inflação pública poderá ter o efeito de reduzir o ajuste do Fed a mudanças súbitas e inesperadas na economia. Tomemos como exemplo o surto de produtividade que se iniciou em 1996 e 1997. Naquela época, a maioria dos modelos de projeção previa que a inflação se aceleraria. Isso teria levado um Fed de metas de inflação a elevar taxas ou a correr o risco de perder a credibilidade perante os mercados. Greenspan, reconhecendo que a expansão da produtividade até então não mensurada poderia abafar os aumentos de preços, manteve as taxas baixas, numa iniciativa que ajudou a alimentar a forte expansão da Nova Economia. Em geral, poderá ficar mais difícil para o Fed ter iniciativas que aparentem contradizer as suas metas de inflação. "Se tivermos mais uma vez algo parecido com o 11 de setembro, a principal coisa que precisaremos tentar fazer é restaurar a confiança do público", disse um formulador de política do Fed que se opõe à política de metas de inflação. "Eu certamente não gostaria de ser surpreendido tendo de elaborar uma meta para estabilidade de preços". De certa forma, surpreende um pouco que a ânsia de controlar a capacidade de discernimento do Fed deva aumentar agora. Afinal, Greenspan tem sido amplamente aplaudido com o melhor dirigente de banco central da história. Durante seus 18 anos como presidente do Fed, investidores de Sidnei a São Paulo se ativeram a cada palavra sua, procurando alusões de mudanças nas taxas de juros e reforço das garantias na vitalidade dos EUA e das economias do mundo. E Greenspan, na condição de resposta econômica ao Oráculo de Delfos, era avidamente procurado por suas opiniões sobre temas que iam muito além da esfera de atuação do Fed, desde a reforma na seguridade social até o preço do gás natural. Apesar do sucesso e da proeminência de Greenspan, porém, muitos economistas e membros da comunidade financeira sentiram um ligeiro desconforto com a forma como ele administrava a política monetária. "Ele foi ficando cada vez mais improvisador, o que acarreta uma série de problemas", disse Jim O´Neill, chefe de análise econômica global no Goldman Sachs em Londres. Isso explica por que economistas tão diferentes como o liberal Alan S. Blinder e o conservador Friedman apóiam Bernanke na sua intenção de passar à fixação de metas de inflação. Segundo esse plano, quando os analistas projetarem que a taxa de inflação se descolará da margem de variação da meta do Fed, o banco central defenderá o seu objetivo com aumentos ou cortes nas taxas de juros de curto prazo. Bernanke descreveu a sua zona de conforto de inflação como um aumento anual de 1% a 2% nos preços, excluindo alimentos e custos de energia. Igualmente importante para a visão de Bernanke é a clara comunicação dos objetivos e estratégias do Fed aos mercados. A intenção aqui é aumentar a previsibilidade da economia e dos mercados para as empresas e os investidores, facilitando o processo decisório. "Bernanke parece estar inclinado a tentar depurar parte do improviso do processo decisório do Fed", disse David A. Lereah, economista-chefe da Associação Nacional de Corretores de Imóveis. Os apoiadores desta estratégia argumentam que um Fed diminuído ainda teria condições de dar conta do recado. De fato, em uma crise ele poderia reagir inundando os mercados com dinheiro suficiente para evitar uma desintegração do sistema financeiro. Da mesma maneira, os defensores de um Fed contido afirmam que ele não hesitaria em reduzir as taxas de juros e estimular a expansão econômica caso a deflação despontasse. Como evidência, eles apontam para o papel dominante que Bernanke desempenhou na decisão do Fed, em meados de 2003, de empurrar as taxas de juros para baixo até o nível extremamente reduzido de 1%, e de mantê-las neste patamar por um ano, para se proteger contra uma queda deflacionária na atividade econômica. Se a economia estiver diante de uma trapalhada ordinária, porém, em vez de se deparar com crises definidas abruptamente, o Fed de Bernanke terá maior probabilidade de errar no lado da restrição da inflação. "Se tivermos uma meta de inflação anunciada publicamente, ficaremos um pouco constrangidos se não a cumprirmos", disse o professor Laurence Ball, da Universidade Johns Hopkins, que escreveu extensamente sobre inflação. "Em algum ponto isso exercerá pressão sobre os elaboradores de política, para que imprimam um pouco mais de ênfase na redução da inflação". O Fed de Bernanke também poderá reagir com menor velocidade assim que se encerrar a forte expansão no setor de habitação. Se o mercado habitacional realmente começar a cair radicalmente, o Fed precisará decidir se cortará as taxas para proteger a economia. Sob Greenspan, essa iniciativa teria vindo como uma segunda natureza. Um Fed com metas de inflação, contudo, seria impedido de atuar até ser convencido de que a forte expansão no mercado habitacional pudesse empurrar a inflação para abaixo do seu limite de variação de meta. Só então Bernanke e os formuladores de política do Fed poderiam decidir cortar as taxas e determinar em quanto. Bernanke insiste em afirmar que manterá a chama do estilo de formulação de política de Greenspan. Flanqueado por Greenspan e Bush na coletiva de imprensa de 24 de outubro na Casa Branca que anunciou a sua nomeação, ele prometeu "manter a continuidade das políticas e das estratégias políticas estabelecidas durante os anos de Greenspan". Apesar disso, o Fed de Bernanke provavelmente será, para bem ou para o mal, diferente e menos grandioso que o Fed de Greenspan. (Tradução de Robert Bánvölgyi).