Título: Brasil perde mercado com acordos
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 11/11/2005, Brasil, p. A3

Os acordos de restrição voluntária de exportações entre Brasil e Argentina conseguiram "disciplinar" os embarques brasileiros para o sócio do Mercosul. Os empresários do país reclamam, porém, que há sinais de desvio de comércio. A Argentina deixou de comprar do Brasil, para importar alguns produtos de fora do bloco. Os acordos foram firmados nos últimos dois anos e conseguiram deter o que os argentinos rotulavam como "invasão" de produtos brasileiros. Contemplam tecidos, calçados, geladeiras e fogões. Os governos tentam enquadrar esses acordos, que foram negociados pelo setor privado, nas regras da Cláusula de Adaptação Competitiva, que está sendo discutida. De acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações brasileiras de calçados para a Argentina recuaram 20% em valor até setembro, ante igual período do ano anterior. Os embarques de lava-roupas para o país vizinho caíram 9,45%. No total, as exportações do Brasil para a Argentina aumentaram 34,5%, de janeiro a outubro, para US$ 8 bilhões. As exportações de alguns produtos cresceram, apesar das cotas, mas não com o vigor de antes. Os embarques de tecidos de algodão subiram 16,4%, e as vendas de geladeira cresceram 31,74%. Um dos mais sensíveis do comércio bilateral, o setor têxtil está negociando com os empresários argentinos o terceiro ano consecutivo de restrição das exportações para a Argentina do denim, tecido usado na fabricação de jeans. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de denim e abastece 35% do mercado argentino. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), as exportações brasileiras de tecidos denim recuaram de 12,67 mil toneladas em 2003, para 9,42 mil toneladas, em 2004. De janeiro a setembro deste ano, as exportações chegaram a 9,67 mil toneladas, ultrapassando um pouco o que havia sido acordado com os argentinos. Para 2006, a Abit pleiteia uma cota maior. "Queremos acompanhar o crescimento do mercado", diz Pimentel. Por enquanto, a Abit não detectou desvio de comércio, mas diz que está monitorando as importações de denim e de confecção da Argentina. Pimentel teme que a instituição de salvaguardas prejudique o Brasil nos acordos bilaterais. Reclama que os argentinos contam, hoje, com câmbio favorável, juros mais baixos e energia elétrica barata. Já o setor de calçados acredita que está ocorrendo desvio de comércio por conta das restrições argentinas. Conforme Heitor Klein, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), as exportações de calçados brasileiros para a Argentina, em volume, recuaram 11% de janeiro a outubro deste ano em relação a igual período de 2004. Na mesma comparação, as compras argentinas de calçados chineses aumentaram 37% em volume. A Argentina fixou uma cota de 13,5 milhões de pares para as importações de calçados brasileiros no período de julho de 2005 a junho de 2006. E também estabeleceu a necessidade de licenças não-automáticas, o que burocratiza a entrada dos produtos. "Formou-se uma fila de calçados na fronteira, que já foi liberada. Mas as licenças de importação para as encomendas de fim de ano estão saindo a conta-gotas", reclama Klein. A consultoria argentina Abeceb.com realizou um levantamento com 17 produtos onde existe conflito entre Brasil e Argentina, como geladeiras, fogões, sapatos, tecidos de algodão, entre outros. Segundo o estudo, as exportações brasileiras desses setores aumentaram 2,1% no primeiro semestre deste ano, ante igual período de 2004. Na mesma comparação, as exportações totais do Brasil subiram 43,8%. A consultoria também concluiu que as importações argentinas desses mesmos produtos, procedentes de outros destinos, aumentaram 84,2%. Segundo Maximiliano Claveri, economista da Abeceb.com, as compras do Brasil foram disciplinadas por imposição dos acordos de restrição voluntária. "Os produtos que subiram acima do previsto ficaram dentro de uma margem tolerável.". Ele vê indícios de desvio de comércio, principalmente na linha branca.