Título: País espera sinal da UE, mas Lamy repensa Hong Kong
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 11/11/2005, Brasil, p. A3

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e o comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, marcaram uma reunião para este sábado em Roma. Pode servir para acalmar os ânimos e discutir como sair do impasse na Rodada Doha da Organização Mundial de Comércio (OMC). O encontro foi solicitado pelos europeus, segundo fontes brasileiras e ocorre depois de um ter acusado o outro pela falta de progressos nas negociações para cortar subsídios e tarifas agrícolas e industriais em Hong Kong, dentro de quatro semanas. As expectativas para Roma são muito diferentes. O Brasil espera receber pelo menos "sinalização" de melhora na oferta agrícola européia. "Se for só para reafirmar posição, não dá", avisou um negociador. Por sua vez, um porta-voz de Mandelson disse ao Valor que a idéia é "tentar criar progresso para Hong Kong", que a UE quer fazer o máximo possível, "mas a prioridade, agora, é obter reciprocidade em bens industriais e serviços". Em discurso ontem no Parlamento Europeu, Mandelson insistiu que "antes de Hong Kong" não fará nova oferta agrícola. Mas negociadores notam que isso não exclui movimento na conferência ministerial para evitar o desastre total de Doha. Bruxelas apronta reformas nos setores de frutas, legumes e vinhos, o que lhe daria uma margem de manobra. O comissário martelou ontem que "simplesmente pedir mais em agricultura não ajuda a fazer uma negociação séria". E que a barganha com o Brasil e outros emergentes em indústria e serviços "está no centro dessa negociação". Em Genebra, Amorim voltou a se reunir com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, e reiterou a "idéia" que Mandelson diz não ter ouvido: de cortar em 50% as tarifas industriais, o que implicaria redução efetiva de 10% nas alíquotas. Em reunião com as delegações dos 148 países-membros, Lamy fez um balanço das negociações e destacou que "a má noticia" é que não dá mesmo para alcançar os acordos previstos para Hong Kong, diante das enormes divergências. E nem adianta insistir porque aí "podemos até perder o que já foi alcançado". A "pequena boa notícia" é que ninguém quer reduzir o nível de ambição para a rodada. E todos se dizem engajados em concluir Doha até o final de 2006. A questão agora é como, na prática, "recalibrar" as expectativas para Hong Kong - "o plano B". Lamy sugere um pacote que "capture" o máximo possível do que foi alcançado desde o acordo agrícola de julho de 2004, para evitar que alguém retire ofertas da mesa. Isso incluiria as propostas tanto dos Estados Unidos - corte de 60% nos subsídios que mais distorcem o comércio -, como a oferta européia de redução média de 39% nas tarifas agrícolas. E na área industrial, a idéia de cortes pela fórmula suíça (reduz mais as tarifas mais altas). Para isso, Lamy acha que é preciso colocar números na declaração ministerial de Hong Kong. O embaixador europeu junto à OMC, Carlo Trojan, reagiu duramente. Insinuou, segundo participantes, que Lamy estava apoiando um lado, já que a UE não aceita números no texto, mesmo que não representem mais do que indicações. O problema é que o clima é de desconfiança. O próprio Lamy contribuiu para o rancor atual. Ministros, vice-ministros e altos representantes de 27 membros vieram para articulações organizadas pela OMC, mas após a primeira parte do encontro, Lamy mandou sair quem não era ministro. O secretário de Comércio Internacional da Argentina, Alfredo Chiaradia, além de vice-ministros de China, Egito, e outros, foram excluídos. "Posso assegurar que não queria ofender ninguém", penitenciou-se Lamy diante dos países.