Título: Timidez de oferta agrícola européia causa pessimismo
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2005, Brasil, p. A4
O mediador da negociação agrícola na Organização Mundial do Comércio (OMC), Crawford Falconer, comparou ontem o atual estado das discussões a um "barco indo em direção das rochas", resumindo o sentimento de crise profunda na Rodada Doha. Depois de uma reunião com os 148 países membros da OMC, o mediador constatou que a nova oferta agrícola européia, que deveria "reativar o motor" da rodada, na verdade não facilitou "nenhuma convergência". A proposta foi rejeitada inclusive pelo G-10, o grupo mais protecionista na agricultura, liderado por Suíça, Japão e Noruega, que normalmente fica ao lado de Bruxelas. Esse grupo considera ambiciosa demais a proposta européia de corte médio de 39% das tarifas agrícolas - justamente o contrário do que reclamam Brasil, Austrália, Estados Unidos e outros exportadores, que querem no mínimo redução média de 54%. O G-10, que representa 14% das importações agrícolas, advertiu que não aceitará como "fato consumado" o que for decidido pelo grupo de cinco países que lidera a negociação agrícola, Brasil, União Européia, Estados Unidos, Índia e Austrália. A nova rodada de negociação entre ministros desses cinco país, através de videoconferência, prevista para esta quarta-feira, que deveria voltar a discutir a oferta agrícola européia acabou sendo cancelada. Oficialmente, o motivo do cancelamento foi a dificuldade para compatibilizar as agendas dos ministros instalados em cidades com fusos horários tão diferentes quanto Brasília, Bruxelas, Nova Déli e Sidney. Mas alguns negociadores concordam que para Washington é politicamente mais prudente evitar novo fiasco na discussão com a União Européia esta semana, quando o Congresso americano continua discutindo o orçamento agrícola para os próximos cinco anos. Na semana passada, a Câmara de Deputados dos EUA aprovou corte de US$ 3,7 bilhões nos gastos, mais do que os US$ 3 bilhões propostos originalmente. Já o Comitê Agrícola do Senado votou a extensão de subsídios pagos a produtores de algodão, arroz e outras mercadorias até 2011, subsídios que deveriam expirar em 2007. Numa reunião ontem na OMC para avaliar o estado da negociação agrícola, o Brasil contestou em nome do G-20 uma série de pontos da oferta européia apresentada na sexta-feira. O embaixador Clodoaldo Hugueney conclamou Bruxelas a se mover rapidamente na questão dos produtos sensíveis, que continuarão tendo altas tarifas. Bruxelas quer excluir da liberalização 8% das linhas tarifárias (categorias de produtos). Mas Hugueney disse que nem pensar. Exemplificou que 2% das linhas tarifárias já excluiriam 80% dos produtos com maior importância comercial para o Brasil. Pela primeira vez, o Brasil foi solicitado pelo resto do G-20 a abordar outros temas não agrícolas. Foi para rejeitar explicitamente o vinculo entre agricultura, produtos industriais, serviços e indicação geográfica, feita pela UE em sua oferta. Hugueney qualificou esse vínculo de completamente desproporcional, e provocaria mais peso para os países em desenvolvimento. Para a China e outros países, a saída é a UE procurar alcançar a proposta intermediária do G-20. O Grupo de Cairns, reunindo 17 exportadores liderados pela Austrália, incluindo o Mercosul, denunciou que a EU ignorou a liberalização "máxima" prevista para os produtos tropicais (banana, café etc). Isso é da maior importância para muitos países latino-americanos, onde os produtos tropicais representam 50% de suas exportações. Negociadores da UE reagiram às críticas chamando de "completamente irrealistas" as demandas dos parceiros. "Estão pedindo a lua", disse um porta-voz europeu. Uma questão insistente ontem foi sobre qual é o plano para evitar um novo fiasco na reunião ministerial prevista para dezembro, em Hong Kong. "Seria não ir a Hong Kong", disse um negociador. Mas Hugueney recusa essa visão "alarmista". Para o embaixador, "ninguém entrega os pontos, está todo mundo trabalhando. Se começar a falar em plano B, desmobiliza (a negociação)". Para outro tarimbado embaixador, o jogo de cena atual na OMC "repete tudo o que já se viu nas negociações anteriores". (AM)