Título: Idas e vindas das aplicações
Autor: Daniele Camba, Luciana Monteiro e Angelo Pavini
Fonte: Valor Econômico, 01/11/2005, EU &, p. D1

Volatilidade promete dar o tom aos mercados em novembro

Quem se baseou no desempenho dos ativos financeiros em setembro, para investir em outubro teve surpresas nada positivas. O mercado em outubro foi marcado por uma intensa volatilidade e mudou da água para o vinho se comparado com o mês anterior. O Índice Bovespa, que em setembro havia subido 12,62%, fechou o mês em queda de 4,40%, atingido principalmente pelos novos temores de uma subida na taxa de juros dos papéis americanos de dez anos. Com o dólar não foi diferente: depois de um longo período de queda - em setembro, por exemplo, desvalorizou-se 5,43% -, em outubro voltou a subir, registrando alta de 1,03%. Para os próximos meses, os analistas acreditam que o mercado de renda variável vai exigir estômago para agüentar a volatilidade, que deve ser ainda maior. Além das incertezas sobre a política monetária americana, há uma nova piora do cenário político local, com novas denúncias envolvendo o governo. Para os que não têm sangue-frio para o sobe-e-desce das cotações, os analistas lembram que a renda fixa continua sendo uma excelente opção. A maioria deles cogita dois cortes de meio ponto percentual na taxa básica de juros até o fim do ano, o que significa uma Selic de 18% ao ano no fim de dezembro. Na ponta do lápis, com a inflação em níveis baixos, perto dos 5% ao ano, o investidor ainda consegue juros reais (descontando a inflação) da ordem de 13% ao ano, lembra o consultor Reginaldo Alexandre, da AdValorem. "Fundos DI e de renda fixa devem continuar a apresentar rendimento real imbatível frente a outros investimentos nos próximos 12 meses", diz o consultor Fabio Colombo. No ano, os fundos DI acumulam ganhos de 15,49% e os de renda fixa de 15,06% até dia 26. Para o sócio da corretora Ágora Senior Alan Gandelman, com a queda dos juros, as aplicações indexadas à inflação devem ganhar atratividade nos próximos meses. O investidor interessado em obter maiores ganhos, segundo Paulo Veiga, sócio da Mercatto Gestão de Recursos, não deve apostar nos prefixados neste momento, pois os papéis já embutem no preço uma nova queda de 0,5 ponto nos juros. Para o dinheiro de curto prazo, a recomendação de Eduardo Jurcevic, superintendente de investimento do Banco Real, é ficar em renda fixa, de preferência em CDBs indexados ao CDI ou fundos DI. Para um prazo médio de até um ano, pode haver uma diversificação, com 50% para fundo DI e 50% para fundos de renda fixa, que podem ganhar com juros menores. A volatilidade deu o tom do mercado em outubro. O Ibovespa, por exemplo, chegou a quase 32.000 pontos no início do mês. Com os sinais de que a inflação americana parecia mais forte do que se imaginava, o índice caiu até 28.000 mil pontos e hoje oscila na casa dos 30.000 pontos. "Ainda não está claro se haverá um aperto monetário, nem mesmo com a nomeação de Ben Bernanke para o lugar de Alan Greenspan no Fed", avalia Veiga, da Mercatto. O investidor estrangeiro que, segundo Gandelman, da Ágora, foi o grande responsável pela valorização da Bovespa desde junho, a partir do mês passado deixou de fazer novos aportes em ações brasileiras. Associado a isso, Gandelman lembra que houve uma deterioração do cenário interno, com novas denúncias recaindo sobre o governo e alguns de seus principais representantes. Além de uma disputa eleitoral começando quase um ano antes. "Sem novas entradas de estrangeiro, a bolsa não tem forças para subir no curto prazo, e ficará volátil, a mercê de notícias", diz. Se os temores sobre a inflação americana trazem uma dose de incerteza, o crescimento econômico mundial - que, segundo o sócio da Claritas Marcelo Karvelis, não dá sinais de enfraquecimento - e os bons fundamentos da economia brasileira mantêm o potencial de valorização da Bovespa. "Por enquanto, não há motivos para uma mudança de tendência positiva para os mercados", diz Karvelis. Enquanto o cenário não fica mais claro, as apostas direcionais - aquelas nas quais o gestor acredita que um determinado ativo irá subir ou cair - devem ser evitadas, diz Rogerio Betti, sócio do escritório de aconselhamento financeiro Beta Advisors. Ele lembra que o último trimestre do ano é marcado por um ajuste de carteiras e o Brasil atraiu neste ano 50% dos recursos que foram destinados a mercados emergentes. Na opinião dele, fundos de arbitragem (os chamados long/short) aparecem como opção mais interessante no momento. Quanto ao dólar, apesar da valorização em outubro, os analistas acreditam que a moeda continuará o processo de desvalorização, impulsionado pelas exportações brasileiras, que ainda estão fortes, pelas emissões de papéis de empresas no exterior, além da entrada de recursos para aplicar em títulos de renda fixa, ainda com bons retornos.