Título: Especialistas vêem entraves para Brasil superar atraso
Autor: Ricardo Balthazar
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2005, Brasil, p. A4

Desenvolvimento Má qualidade da educação é um dos problemas apontados

O Brasil tem algumas ilhas de excelência no meio acadêmico e um punhado de empresas de categoria mundial, mas está longe de superar a distância que o separa dos países mais desenvolvidos e mesmo de competidores como a China e a Coréia do Sul. O mais grave é que pode ser tarde para reverter esse quadro, na avaliação de um grupo de especialistas que debateu o tema ontem. "Vocês estão atrasados e têm que lidar com isso", resumiu o economista americano Richard Nelson, professor da Universidade Columbia. "Vocês têm universidades importantes e empresas bem-sucedidas, mas grande parte da população não está preparada para lidar com tecnologias que atualmente são cruciais para o desenvolvimento econômico." Nelson é visto no meio acadêmico como um dos maiores especialistas do mundo no assunto. Ele tem vários livros publicados sobre a influência que governos, universidades e outras instituições exercem na forma como as empresas absorvem novas tecnologias e disseminam inovações. No debate de ontem, organizado pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso, Nelson observou que muitas políticas que no passado ajudaram países em desenvolvimento a alcançar seus rivais tornaram-se inviáveis, por causa das restrições impostas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) à concessão de subsídios e proteção à indústria. "Todos os países recorreram a políticas desse tipo no passado, mas essa estratégia não é mais possível hoje", disse Nelson. Investimentos em pesquisas científicas e no fortalecimento das universidades, que não são afetados pelas regras da OMC, podem ser muito valiosos, mas o economista americano manifestou dúvidas sobre sua capacidade de estimular a inovação nas empresas. Para Nelson, é um mito a idéia de que produtos inovadores nascem sempre com descobertas feitas por cientistas em laboratórios das universidades. "Isso é verdade em algumas indústrias, como a farmacêutica, mas em muitos setores a contribuição dos pesquisadores para a inovação na indústria é muito pequena", disse. "Em grande parte, a inovação nasce de demandas dos consumidores e de problemas encontrados nas linhas de montagem." O economista Wilson Suzigan, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que participou do debate com Nelson, se disse pessimista sobre as condições que o país teria de diminuir seu atraso. "Nosso sistema educacional têm deficiências históricas e persistentes, faltam mecanismos para financiar a inovação e ajudar empresas emergentes, e a pesquisa nas universidades é pouco orientada para o interesse do setor produtivo", enumerou. O economista Carlos Américo Pacheco, professor da Unicamp e ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, observou que a expansão do sistema universitário no país têm sido "muito autocentrada", não tem controle do governo e não leva em consideração as necessidades do setor privado e os "requisitos de desenvolvimento do país". É um problema complicado, que também preocupa nações mais avançadas e na opinião de Nelson tem raízes muito mais profundas. "Os Estados Unidos e o Japão também estão assustados com a baixa qualidade da educação de suas populações", disse o economista americano. "É preciso investir mais nas escolas e no treinamento dos professores, porque você não consegue educar as crianças simplesmente colocando-as dentro da classe e mandando que aprendam."