Título: O giro diplomático de Bush na América Latina
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2005, Opinião, p. A8
Onze anos depois da primeira Cúpula das Américas, onde figurou como meta, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) sequer continua no papel. Reunidos em Mar Del Plata no sábado, os países americanos não chegaram a acordo nem sobre a necessidade de marcar data para que as negociações, paralisadas desde fevereiro de 2004, sejam retomadas. O resultado da quarta Cúpula foi nulo, quando não exótico. Se algo emergiu das reuniões no balneário argentino, e prosseguiu em encontros bilaterais no Brasil, foi a aproximação circunstancial, comedida e cautelosa entre os presidentes George Bush e Luiz Inácio Lula da Silva. A agenda da Cúpula, que carregou Bush à Argentina, era imprópria e se resumia à discussão sobre combate ao desemprego e à informalidade no continente. A principal razão para reunir 33 presidentes, entretanto, foi, o que era previsível, definir os rumos da Alca. O combate à desocupação foi jogado de lado pelo choque de posições que colocou, de um lado, EUA, México e mais 27 países, a favor de que fosse estipulada uma data no primeiro semestre de 2006 para que suas negociações fossem reabilitadas, e, de outro, Mercosul mais Venezuela, que se opunham até mesmo a isso. Uma das conseqüências da acirrada divergência sobre a Alca foi um esdrúxulo comunicado final, onde as duas posições foram contempladas, na absoluta impossibilidade de compromisso. O Brasil acomodou-se bem na companhia da Argentina e da Venezuela, sob o argumento de que não há condições para o reinício das discussões da Alca, pelo menos não antes de que estejam definidos os rumos da rodada Doha da Organização Mundial do Comércio. O presidente Hugo Chávez deu o seu show habitual, mas sua motivação era diferente - enterrar a Alca. Na posição do Mercosul pesou mais a reticência em relação ao assunto, já que não houve qualquer obstáculo teórico ou prático para que o bloco relançasse os encontros para um acordo com a União Européia, de quem parte a maior resistência a podar subsídios agrícolas na rodada global. A Alca já saiu da agenda brasileira, revelou o próprio presidente Lula, e pelo visto continua assim. Para complicar mais o destino da Alca, Chávez deixará de ser em breve voz quase solitária e radical contra ela e ganhará um fórum, como membro pleno do Mercosul. Se a posição comum adotada durante a Cúpula é uma avant-première dos caminhos futuros do bloco, o espetáculo promete. A América Latina continua distante das prioridades de Bush, mas o presidente dos EUA seguiu à risca um roteiro traçado para isolar a Venezuela e tentar uma aproximação amistosa com eventuais companheiros de viagem de Chávez, como Kirchner e Lula. Não poupou elogios a ambos, o que teve peso maior em relação ao mandatário argentino, que esbraveja contra os organismos internacionais e os EUA e conduziu o maior calote da dívida da história mundial - o que não o impediu de ouvir novos ataques de Kirchner logo depois das mesuras. Bush foi diplomático sobre a Alca e mostrou-se um aliado confiável do Mercosul nas pressões para redução dos subsídios agrícolas na rodada de Doha. Nessa questão vital, os EUA estão inusualmente ao lado do G-20 contra a UE, o que é bom para o Brasil. O ponta-de-lança da diplomacia americana na questão da Alca durante a Cúpula foi o presidente mexicano Vicente Fox, que disse que, se a Alca não contasse com o apoio do Mercosul, sairia sem ele. Não estava sozinho - 28 países o apoiaram. De resto, esse já é de fato o desenho comercial dos EUA, que avança com acordos bilaterais ou em bloco com os países da região. O motivo da incomum boa vontade americana é a crescente instabilidade política na América Latina, da qual tem emergido governos com tendências esquerdistas e/ou marcadamente anti-EUA. Chávez, Kirchner e Lula já formam um trio capaz de dar dores de cabeça nos estrategistas de Washington. A Bolívia pode produzir em breve um novo pólo de insatisfação, se o favorito Evo Morales vencer as eleições em dezembro. O Uruguai elegeu o socialista Tabaré Vasquez, enquanto que Peru e Equador seguem na rota das turbulências políticas. 2006 é um ano eleitoral nos principais países da região e procurar, com algumas concessões e muita retórica, afastar uma potencial aliança de descontentes é uma das missões da diplomacia americana, executada com desenvoltura por Bush em suas reuniões durante e depois da Cúpula.