Título: Educação, investimento, dólar alto e juro baixo
Autor: Fernando Bueno
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2005, Opinião, p. A8
A velha fórmula levantou a Europa no pós-guerra e sustenta o milagre coreano
Desenvolvimento econômico pressupõe a criação de valor e sua recirculação para a sociedade. Quanto maior for a parcela da sociedade que participar dessa recirculação, maior a capacidade de realimentação desse processo, ou seja, o desenvolvimento econômico se alavanca do desenvolvimento social. Desenvolvimento social se faz com o desenvolvimento do indivíduo e com um ambiente que permita a criação de oportunidades para todos (baseadas na própria diversidade humana), evitando o cerceamento de oportunidades ou sua concentração em uma pequena parcela da sociedade. Por outro lado, o desenvolvimento do indivíduo requer investimento em educação e na subseqüente oportunidade de utilizar e fortalecer os conhecimentos e conceitos adquiridos, o que normalmente só as estruturas coletivas (e a empresa é a mais bem sucedida delas) podem propiciar. A oportunidade, dessa forma, está intimamente ligada ao desenvolvimento econômico, através do sucesso e da saúde das empresas. É claro que precisamos encontrar um justo equilíbrio entre a cooperação (que insere pessoas, aumenta a capacidade de vencer desafios etc.) e a competição (que assegura vitórias e é o estímulo para o progresso). Em outras palavras, como atingir o coletivo, ou o bem de todos, sem inibir a expressão individual, que é a essência do homem e do seu avanço. A solução é um conjunto de valores que garantam este equilíbrio, os quais a sociedade tem de construir, aceitar e dominar e que sejam a base para uma sociedade evoluída. Neste processo, a simbiose entre o social e o econômico tem de ser estabelecida, fazendo com que os indicadores sociais direcionem o desenvolvimento econômico, e também fazendo com que os indicadores econômicos sejam levados em conta ao buscarmos o desenvolvimento social. O sistema político e o exercício de governo devem garantir uma participação equilibrada dos segmentos da sociedade no estabelecimento de direções e metas e em sua implementação, levando ao efetivo alinhamento dos anseios dos representados ao poder dos representantes. Um equilíbrio entre poderes, baseado em controles mútuos, e a aproximação do indivíduo aos processos de governo através da proximidade aos representantes, e de uma ação direta através do exercício permanente da crítica, são essenciais. Entender as relações de causa e efeito e os valores que movem os agentes sociais é essencial para poder estabelecer alianças com a sociedade e influir no processo, buscando atingir as metas pré-fixadas.
Brasil perdeu sua visão estratégica e passou a viver de vantagens comparativas que não trazem desenvolvimento
É muito claro que o crescimento econômico do país a taxas superiores a 5% ao ano é condição necessária, ainda que não suficiente, para podermos avançar na solução de nossos problemas. Além de crescer, entretanto, temos que resgatar o conceito de desenvolvimento, perdido ao longo dos anos 80. A melhoria da capacidade de inovação das empresas brasileiras e das cadeias produtivas implica na disponibilidade de recursos humanos intensivos em educação, e num sistema de ciência e tecnologia integrado com as empresas dentro de uma política industrial que explicite claramente estes objetivos e disponha dos meios para tanto. Podemos dizer que as agendas do desenvolvimento e da competitividade são convergentes e interdependentes. A competitividade não se estabelece de maneira espontânea. Hoje, os recursos naturais (vantagens comparativas) não conseguem, isoladamente, gerar o bem-estar comum. A tecnologia e a inovação aplicadas (vantagens competitivas) são construídas coletivamente e fruto de planejamento e engajamento harmônico de empresários, governo, universidades, centros de pesquisa e associações. Nas últimas décadas, constatamos pontos em comum nos países que mais evoluíram e o contraste com o desempenho do Brasil. A escolaridade dos desenvolvidos está acima de 8,5 anos e a do Brasil abaixo de cinco anos. Se levarmos em consideração a qualidade do ensino, a nossa escolaridade equivalente é de três anos (70% de analfabetismo funcional). Os países competitivos apresentam recursos produtivos acima de US$ 30 mil por trabalhador contra US$ 11 mil no Brasil. Os investimentos produtivos no Primeiro Mundo são de US$ 6 mil trabalhador/ano, contra US$ 700 no Brasil. Em outras palavras, podemos dizer que o mundo desenvolvido renova ou duplica seu parque industrial em seis anos, contra 17 anos no Brasil, ampliando ainda mais a nossa defasagem. Nestes países, a competitividade foi alavancada com a depreciação da moeda, contrastando com a valorização do real, equívoco já cometido em passado recente. É surpreendente o exemplo coreano, que, em três décadas, saiu de condições sociais e econômicas inferiores ao Brasil e entrou para o seleto grupo dos países ricos e dinâmicos - e nós continuamos no grupo dos pobres decadentes. O milagre coreano foi baseado na velha e válida receita de sempre: educação, investimento, dólar alto e juro baixo, que levantou a Europa no pós-guerra e que o Brasil se utilizou parcialmente até a década de 70. Mesmo aqui, as poucas empresas, setores ou regiões que apresentam conjugação de capital humano e capital produtivo semelhantes ao Primeiro Mundo são competitivos. Infelizmente, o país perdeu nas últimas décadas a sua visão estratégica. Com raríssimas exceções, vivemos hoje de vantagens comparativas que não se sustentam e nem trazem desenvolvimento econômico e social. Apesar dos pontos acima abordados serem mais produtos de constatações do que de modelos acadêmicos, os mesmos são contemplados pelo prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz em seu livro "The Insider". Lamentavelmente nós somos superiores. Tal simplicidade não preenche os egos sofisticados e os interesses dos economistas que conduzem o país. Temos como cidadãos, empresários e entidades o dever de fazermos a nossa parte, mas temos também, o direito de participar das formulações. Hoje, o fortalecimento do governo se sobrepõe à sobrevivência da sociedade. É possível reverter a situação, e o ponto de partida é o reconhecimento da interdependência e da co-responsabilidade de todos agentes envolvidos. Democracia, idealismo, humildade e determinação são bem-vindos!