Título: Ferrovias devem receber R$ 1,8 bi em 2006
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2005, Empresas &, p. B7

Logística Carteira de recursos do BNDES para o setor prevê R$ 4,9 bilhões até 2007, incluindo os grandes projetos

Os investimentos em ferrovias, em 2006, estarão apoiados mais em iniciativas privadas para ampliar a capacidade de carga e aumentar a eficiência do transporte do que em grandes projetos de infra-estrutura. É o que indica a carteira de projetos do departamento de logística do BNDES. O levantamento prevê investimentos de R$ 1,8 bilhão no setor ferroviário no ano que vem com a maior parte dos recursos voltada para a compra de vagões, locomotivas e reformas de vias. Não estão previstos desembolsos para empreendimentos aguardados com expectativa como a implantação da ferrovia Norte-Sul e do anel ferroviário de São Paulo. A construção da Nova Transnordestina, outra grande obra ferroviária ainda em compasso de espera, poderá receber investimentos já em 2006. Mas a tendência é de que seja apenas uma pequena parcela dos R$ 400 milhões que o BNDES se dispõe a financiar. "O banco está disposto a financiar todos os projetos que forem viáveis mas há decisões que estão fora de nossa governabilidade", diz Rômulo Martins, chefe do departamento de transportes e logística da área de infra-estrutura do BNDES. O calendário eleitoral de 2006 impõe dificuldade extra ao banco de fomento no apoio aos grandes projetos estruturantes do setor ferroviário: o BNDES só pode contratar financiamentos junto ao setor público, para realização de obras novas, até abril do ano que vem. Em um horizonte de dois anos, 2006-2007, a carteira ferroviária do BNDES soma quase R$ 5 bilhões em investimentos a serem feitos por empresas privadas com o apoio do banco de fomento. Em 2007 seriam mais R$ 3,1 bilhões. "Os valores representam a disposição do BNDES de participar dos investimentos no setor", diz Martins. Ele reconhece que há empresas que costumam fazer seus investimentos em ferrovias sem passar pelo banco. Em outros casos, o BNDES tem papel importante. A Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), futura sócia da Nova Transnordestina, tem plano de investimento de R$ 185 milhões, dos quais R$ 144 milhões financiados pelo BNDES. Da parcela do banco, apenas R$ 60 milhões serão desembolsados em 2005. O resto será em 2006. Já a América Latina Logística (ALL) conta com linha de crédito de R$ 110 milhões do BNDES, mas só deverá utilizá-la em 2006. "Além desta linha, estamos entrando no BNDES com novo projeto para investimentos a partir de 2006", diz Carlos Augusto Moreira, gerente financeiro da ALL. Ele afirmou que a empresa prevê investir cerca de R$ 250 milhões no ano que vem e mais R$ 300 milhões a R$ 350 milhões entre 2007 e 2008 em tecnologia, reformas de vagões e de vias permanentes. A ALL também pretende continuar as parcerias com clientes, como Bunge e Cargill, na compra de vagões. Os acordos entre as ferrovias e os clientes na aquisição e reforma de vagões e locomotivas surgiram após a privatização do setor no país. Foi nesse momento que as concessionárias investiram pesado na reforma da via, como forma de expandir a capacidade de carga para atender o crescimento da demanda e assegurar maior eficiência em segmentos exportadores como o agronegócio. "Buscamos maior eficiência e uma operação segura", diz César Borges de Sousa, vice-presidente da Caramuru Alimentos. A Caramuru está investindo cerca de R$ 30 milhões na compra de 300 vagões e 10 locomotivas, dos quais 103 vagões e cinco locomotivas já estão em operação. O restante do investimento será feito em 2006 e 2007. Na primeira fase, a Caramuru investiu R$ 9,3 milhões e o BNDES financiou mais R$ 6,1 milhões. Sousa informou que o equipamento é usado em acordo com a Ferroban para escoar soja até o porto de Santos. Em 2005, a Caramuru deve transportar 450 mil toneladas de grãos, via ferroviária, até Santos, volume que deverá crescer 33% em 2006. A Cargill foi uma das primeiras empresas a fechar parceria com uma ferrovia. O primeiro acordo foi em 1999 com a ALL e envolveu a compra de 24 vagões. Ricardo Nascimbeni, gerente de logística do complexo soja da Cargill, diz que a empresa continua a estudar parcerias com ferrovias. Nos últimos quatro anos, a Cargill investiu cerca de R$ 90 milhões na compra e reforma de vagões, locomotivas e reformas de vias. A empresa tem acordos com a ALL e com a Brasil Ferrovias (Novoeste e Ferronorte). Em 2005, a Cargill deve movimentar 6 milhões de toneladas de commodities agrícolas por ferrovia, volume 20% maior que em 2004. Outro projeto em perspectiva na carteira do BNDES para 2006 é a aquisição de cerca de 1,5 mil vagões. O investimento total será de R$ 328 milhões e financiamento de R$ 281 milhões em operação de leasing envolvendo bancos e clientes da Brasil Ferrovias. Martins, do BNDES, diz que se trata da maior operação de leasing do país. Ele acrescentou que a Brasil Ferrovias também conta com linha de financiamento do banco de R$ 265 milhões, para investimento, dos quais só cerca de 15% devem ser liberados em 2005. Martins citou outras duas operações aprovadas recentemente pelo banco: um financiamento de R$ 40 milhões para a aquisição de 189 vagões pela MRC, empresa ligada à Mitsui, e um empréstimo de R$ 15 milhões para a compra de 80 vagões pela Cargill. Em 2005, a carteira do BNDES para o setor ferroviário indica investimentos totais de R$ 1,7 bilhão, dos quais R$ 1,2 bilhão (70%) correspondem ao apoio do banco. Os valores correspondem a operações enquadradas, aprovadas e contratadas.