Título: A saúde dos pobres
Autor: D. Eugenio Sales
Fonte: Valor Econômico, 12/11/2005, Opinião, p. A11

''A via-crucis até o hospital'' é o título de uma reportagem premiada no mês de outubro último, em um jornal. Não acuso ou condeno pessoa alguma ao tratar do atual sistema de saúde. Contudo, sinto-me no dever de insistir para que haja uma solução rápida para tão grave problema que aflige os pobres necessitados que recorrem às instituições especializadas, em decorrência de enfermidades ou acidentes. Todos nós temos uma parcela de responsabilidade, principalmente os que governam, eleitos pelo voto, inclusive dessas mesmas pessoas. Não cito nomes nem faço acusações, mas manifesto um pedido: uma pronta ação que resolva o difícil problema. Tomei um jornal, ao acaso, e li o que transcrevo a seguir: ''A via- crucis até o hospital: como um acidente doméstico pode mostrar a precariedade do sistema de saúde no Estado''. (...) ''Paciente morre na porta de um Posto de Saúde''. (...) ''Até um ano de espera''. (...) ''Menos leitos nos hospitais''. (...) ''Oferta de vagas do SUS no Estado cai 20%''. Todos esses títulos eu os obtive em um único jornal, de 23 de outubro de 2005, e não se enfileira entre os denominados ''sensacionalistas''. Lembro aos que lerem essas linhas, que o assunto vem sendo quase diariamente tratado também nas televisões e nas emissoras de rádio. Revela o clima de violência que reina no Rio de Janeiro e em outras cidades, que atinge particularmente os mais pobres. A seguir, recordemos os sofrimentos suportados pelos carentes de assistência médica; as longas filas dos que procuram atendimento, tentando aliviar seus males nesses hospitais. Essa recapitulação de dramas pessoais ainda não expressa a dimensão trágica que deve pesar em nossas consciências. Salvo alguns casos, a situação não muda, mesmo após as promessas de soluções e os acordos entre os responsáveis. Logo depois se comunica o adiamento ou simplesmente deixa-se cair no esquecimento. Isto não é aceitável a uma consciência bem formada. Vivemos em uma cidade em que quase a totalidade da população se declara cristã, mas não vive conforme as determinações de sua fé no atendimento aos mais necessitados. Não tenho intenção de acusar, mas simplesmente pedir que reflitam sobre esses fatos dolorosos, dentro das exigências de sua crença. Em vez de fazer acusações decorrentes dessa situação calamitosa, encareço, em nome desses nossos irmãos, um atendimento condigno nos nossos hospitais que têm sido objeto de noticiários da imprensa. Nesse sentido, cito em algumas passagens da Bíblia, o ensino de Deus a nós dirigido. A resposta, não a peço para mim, mas que seja dirigida ao próprio Senhor Jesus. Deus ama o pobre. Este O tem por seu refúgio. São privilegiados pelo Senhor. Nós vamos dar contas severas a Ele. Assim diz o Livro dos Provérbios (14,31): ''O que oprime o pobre insulta Àquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado, O honra''. Diante de uma situação tão dolorosa, ouçamos a Palavra do Senhor também a nós dirigida: ''O que tapa o seu ouvido ao clamor do pobre, ele mesmo clamará e não será ouvido'' (Provérbios 21,13). Os que porventura raciocinam à luz dos interesses políticos e partidários na solução dos problemas da assistência hospitalar, lembrem-se o que escreveu Daniel (4,24): ''Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe fim aos teus pecados, praticando a justiça e não as tuas iniqüidades, usando de misericórdia com os pobres, pois talvez se prolongue a tua tranqüilidade''. São Tiago, em sua Epístola (2,5-6), nos questiona com as seguintes palavras: ''Ouvi, meus amados irmãos: não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? E, no entanto, vós desprezais o pobre!'' No Evangelho de São Mateus (11,4-5), Jesus responde aos enviados por João Batista que perguntavam se Ele era o Messias esperado: ''Os pobres são evangelizados''. Em São Lucas (6,20), em seu discurso inaugural, revela o respeito que seus discípulos devem ter pelos indigentes: ''Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus''. Ainda, em Lucas (19,8 ss), evidencia-se a importância da relação com o pobre para a própria vida eterna. O que ocorre com o atendimento aos pobres em hospitais que se destinam aos necessitados é algo inacreditável, não fossem os noticiários, respaldados por fotografias e pela televisão. Há meses que perdura esse quadro, intercalado por promessas dos que ainda não conseguiram realmente erradicar essa precariedade. Volto a insistir: meditemos sobre essa situação, à luz das palavras da Sagrada Escritura. Nós daremos conta a Deus, que perscruta o coração de cada um. Se houve má aplicação ou desvio de verba que se aplique a lei. A dimensão do pobre está acima da susceptibilidade política manifestada em planos, mesmo nobres. Na mensagem de João Paulo II, em preparação ao XVIII Dia Mundial do Enfermo, com data de 6 de agosto de 1999, há um trecho que nos ajuda a assumir nossos deveres: ''Trata-se de um grave escândalo, diante do qual os Responsáveis das Nações não podem deixar de se sentir comprometidos em prodigalizar todos os esforços, a fim de que a quantos vivem na penúria de meios materiais seja dada a possibilidade de atendimento, cuidados médicos de base''. Merece ainda a devida atenção as seguintes palavras nesse documento: ''Penso ainda de maneira particular nas graves desigualdades sociais no que diz respeito ao acesso aos recursos médicos''. Que Deus nos abençoe ajudando a corrigir os erros para o bem dos mais pobres.