Título: Filho de Mané emociona o Botafogo
Autor: Sérgio Dantas
Fonte: Valor Econômico, 12/11/2005, Esportes, p. A22

O sueco Ulf surpreendeu torcedores e funcionários do clube com a semelhança e a irreverência do anjo das pernas tortas

Foi o encontro da frieza nórdica com o calor latino. Quando Ulf Lindberg, o filho sueco de Garrincha, conheceu Nílton Santos, o compadre do Mané, na velha sede de General Severiano, ontem, o herdeiro do anjo das pernas tortas e a Enciclopédia do Futebol custaram a se entender. Mas se é complicado para um sueco perceber a forte emoção do ex-lateral botafoguense, que foi o melhor amigo de Garrincha, por outro lado o clima de reverência que dominou a visita fez o herdeiro de Garrincha, aos 46 anos, reconhecer a importância que seus traços fisionômicos têm para os brasileiros. Foi uma festa memorável para Ulf, que hoje visitará Pau Grande, o distrito no pé da serra de Petrópolis que viu seu pai dar os primeiros e inesquecíveis dribles. Lá, ele e o tímido Martin, de 16 anos, vão visitar o túmulo de Garrincha e conhecer as oito irmãs e os amigos de infância de Garrincha num churrasco regado a cerveja. Antes, o animado Ulf exibe suas pernas tortas numa pelada no estádio de Pau Grande. Irreverente como o pai, Ulf fez questão de tocar os troféus e bater bola no campo, já com a camisa 7 e calção, para mostrar que o joelho é o mesmo de seu pai, a ponto de Nilton Santos se impressionar com a semelhança que insistira em negar no primeiro encontro - Só vim porque o presidente me pediu. Não estou mais com idade para essas coisas. Mas o rapaz lembra alguma coisa do Mané, sim. O tamanho é o mesmo - disse Nílton Santos, com as lágrimas descendo do rosto, visivelmente emocionado, sob os cuidados de Dona Célia, sua mulher. Depois, já no clima alegre do sueco, que fazia embaixadinhas para delírio dos torcedores, fez questão de observar os joelhos de Ulf. - É igualzinho mesmo. Isso também ajudava a confundir os marcadores. No tamanho principalmente. É curioso. Mas isso me faz lembrar coisas tristes. Daqui a pouco eu infarto. Me emociono porque a gente conviveu muito. Não gosto nem de lembrar - disse Nilton, de 80 anos, sem esconder as lágrimas, mas feliz. O encontro da mãe de Ulf com Garrincha foi contada pelo intérprete. A jovem de apenas 19 anos cuja identidade é cercada de mistério até hoje não suportou a responsabilidade de ser mãe solteira do filho de um estrangeiro de origem indígena num país escandinavo. Na manhã seguinte, acompanhada do pai e de um policial, procurou Garrincha. O policial comunicou que ele era o pai da criança e lhe perguntaram se iria assumir a paternidade. Garrincha aceitou que colhessem seu sangue para o reconhecimento e por isso não foi preso. - Não entendemos nada quando vimos o policial com o Mané. Achamos que ele estava indo preso - contou Nílton.