Título: Crise da febre aftosa atrasa captações
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2005, Finanças, p. C1

Mercado externo Bancos credores e investidores preferem esperar por mais definições

A descoberta de focos de febre aftosa nos bois brasileiros está atrasando operações de captação externa dos grandes frigoríficos - empréstimos e eurobônus. Antes da crise, o setor de carne bovina estava em alta no mercado de capitais e entre bancos internacionais, com oferta de crédito de sobra para as maiores empresas. Agora, inúmeras instituições financeiras continuam dispostas a trabalhar com o setor, principalmente os que conhecem mais o país e sabem diferenciar claramente uma empresa de outra. Mas, outros bancos e investidores internacionais preferem esperar um pouco mais para ver qual será a dimensão da crise e quais empresas serão as mais afetadas antes de tomar uma decisão final de crédito. Segundo o Valor apurou, investidores e bancos estrangeiros têm se perguntado se os focos de aftosa estão realmente restritos ao Mato Grosso do Sul ou se haverá confirmação de novos focos em outros Estados. O fato de São Paulo estar fora da crise ajuda -60% da exportação brasileira de carne in natura vêm desse Estado. Mas, os possíveis futuros credores querem esperar para ver o real impacto da aftosa sobre a exportação dos frigoríficos envolvidos, ainda mais que diversas operações de captação externa em andamento tinham como garantia a exportação. Algumas empresas podem até se beneficiar com a crise, avaliam os bancos, pois o preço da arroba caiu cerca de 13% no mercado interno desde o início da crise, enquanto no exterior o preço ficou estável e até subiu para alguns cortes mais nobres, como o filé mignon. Com isso, as margens do exportador que compra o boi aqui e vende os cortes lá fora crescem. Além disso, frigoríficos com margem de manobra podem acabar exportando até mais, ao ganhar fatias de mercado de outros. Mesmo no mercado interno, a redistribuição de participações ainda está em curso e poderá resultar em um novo desenho para o setor, segundo acreditam os bancos. De uma forma geral, os maiores frigoríficos tendem a se sair melhor, pois podem redirecionar a produção mais facilmente. O Friboi havia acabado de lançar empréstimo externo de US$ 50 milhões, que teve oferta de até US$ 100 milhões por parte dos bancos, pelo prazo de vencimento em quatro anos, quando apareceu o foco de aftosa. A operação sindicalizada (com a participação de vários bancos), coordenada pelo BNP Paribas, que será o maior empréstimo ao setor, está sendo finalizada atendendo ao fluxo de caixa da empresa, informa Sérgio Longo, diretor financeiro. Mas, segundo apurou o Valor, houve bancos que ficaram mais cautelosos e pediram mais tempo para pensar antes de assinar o contrato, principalmente aqueles que já tinham exposição ao setor de carnes. O Friboi confirma que "bancos de menor porte preocuparam-se mais no início, mas com o correto esclarecimento prestado, e devido à capilaridade de nossas unidades de produção no Brasil e na Argentina, entenderam ser nulo, senão positivo, o impacto da crise para a empresa", segundo Longo. De acordo com ele, "nossos principais bancos, nacionais e estrangeiros, apresentaram-se prontos para novas linhas, se necessário". Em setembro, o Friboi chegou até a receber oferta dos bancos para o lançamento de um bônus perpétuo (sem vencimento final), que hoje seria de mais difícil colocação por conta não só da aftosa, mas também de condições menos favoráveis do mercado internacional, que dificultaram até operações da Vale do Rio Doce e da Aços Vicunha. Longo confirmou que "bancos de primeira linha, internacionais e mesmo brasileiros, têm mantido sua oferta para uma possível emissão de um bônus de longo prazo ou perpétuo". De acordo com ele, no entanto, a opção da diretoria da empresa é não lançar o papel durante este ano. Segundo informaram ao Valor, os bancos consideram o Friboi um bom crédito - é o maior exportador de carne bovina do país - e avaliam que o frigorífico deverá ser um dos menos afetados negativamente, por conta da produção em duas plantas da subsidiária Swift Armour, na Argentina, adquirida em setembro. O grupo também apresentou proposta de arrendamento de uma unidade do frigorífico argentino Cepa. No Brasil, as exportações do Friboi de carne in natura estão sendo alimentadas por unidades em Goiás, Mato Grosso e Rondônia. Segundo Longo, mesmo com a crise da aftosa, o grupo mantém inalterada a projeção de exportar neste ano US$ 650 milhões. No início do ano, a meta era de US$ 590 milhões, que foi revista em julho. Se realizada, a nova meta significa um aumento de 25% sobre os US$ 520 milhões de 2004. Já o frigorífico Independência estava para fechar um empréstimo liderado pelo ABN AMRO, de US$ 50 milhões e estrutura inovadora, que teve sua finalização adiada por conta da crise. As negociações continuam, informou o Independência, que não quis fornecer maiores detalhes. Os bancos dizem que a empresa está capitalizada e tem condições de esperar um melhor momento para conseguir condições - prazos e preço - mais favoráveis, inclusive para um bônus. O grupo Bertin, que faturou R$ 3,4 bilhões em 2004, foi o primeiro frigorífico a lançar eurobônus no mercado internacional - captou em julho US$ 120 milhões pelo prazo de três anos, em operação liderada pelo Standard Bank. Os títulos da empresa chegaram a ter queda de preços por causa da crise da febre aftosa, passando do nível de mais de 101,5% do valor de face para cerca de 99% a 98% do valor de face. Mas, segundo investidores, a liquidez do papel é pequena. O Bertin também foi o pioneiro a realizar empréstimos de longo prazo, mas de valor menor - de US$ 20 milhões a US$ 25 milhões. Fez duas operações de pré-pagamento para exportação em 2003, com vencimentos em três e cinco anos, com a liderança do Rabobank. Segundo bancos, estaria estudando a emissão de um bônus perpétuo quando a crise da aftosa explodiu, adiando esses planos, o que foi negado pela empresa, que diz que só tem interesse em emitir papéis com vencimento final. O Bertin acaba de receber R$ 284,5 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para investimentos em produção. A empresa é o segundo maior exportador de carne do país e redirecionou parte de sua produção para Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pará e Votuporanga, em São Paulo. O Banco do Brasil anunciou a liberação de crédito para os pecuaristas do Mato Grosso do Sul, a principal região afetada pela febre aftosa. O banco passou a incluir a compra de vacinas entre os itens financiados por meio do custeio pecuário e, entre outras medidas, pretende, também, mediante exame caso a caso, prorrogar dívidas vencidas e vincendas de produtores com dificuldades de comercialização de animais.