Título: Cartão do cidadão terá função ampliada
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 03/11/2005, Finanças, p. C8

Inclusão bancária Caixa, em parceira com a Visanet, e BB querem permitir o saque em várias vezes e uso de POS

A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil preparam um novo passo no programa de inclusão bancária, que deverá atingir cerca de 55 milhões de pessoas que recebem benefícios nessas instituições. Os dois bancos pretendem ampliar as funções de seus cartões de saques de benefícios sociais, o que vai transformá-los em embriões de contas bancárias. Hoje, as 52 milhões de pessoas que têm cartões do cidadão, emitidos pela Caixa, podem sacar benefícios sociais - como seguro-desemprego, FGTS e PIS - apenas de uma só vez. Em parceria com a Visanet, a Caixa quer permitir que os cidadãos saquem os valores em várias vezes, nas suas agências e nos terminais de cartões de crédito e débito instalados no comércio - os chamados POS (point of sale, ou ponto de venda). Além disso, a idéia é permitir que os cartões de recebimento de benefícios sejam usados como cartões de débito - ou seja, poderão funcionar no pagamento de despesas e contas no comércio. O BB vai aplicar fórmula semelhante nos 3,5 milhões de cartões de saques de benefícios previdenciários. "Esse é o próximo passo no programa de inclusão bancária", disse Gilson Bittencourt, assessor especial do Ministério da Fazenda para microfinanças. Segundo ele, a ampliação das funções desses cartões de saques de benefícios sociais vai permitir que os bancos conheçam melhor os hábitos de milhões de pessoas que estão completamente à margem do sistema financeiro. "No futuro, esses cartões poderão se transformar em contas bancárias." Essa seria uma forma de ampliar o número de contas simplificadas (que não pagam tarifas, destinadas à população de baixa renda), que, em julho passado, somavam 4,75 milhões. "A medida vai permitir que os cidadãos gastem o dinheiro de seus benefícios na região onde moram, gerando renda e riqueza localmente", disse o vice-presidente de Transferência de Benefícios da Caixa, Carlos Augusto Borges. "Em alguns municípios, os benefícios sociais pagos pelo governo respondem por mais da metade da renda local." O diretor-executivo de estratégia de produtos da Visanet, Luiz Eduardo Ritzmann, explica que já existe tecnologia disponível para ampliar as funções dos cartões de pagamentos de benefícios. Seriam aplicados os mesmos princípios dos cartões pré-pagos, em que o valor é creditado uma só vez e pode ser sacado em várias vezes ou usado para pagar contas em terminais no comércio. Para ampliar a função dos cartões, diz, basta agregar uma bandeira de um cartão de crédito e débito. As possibilidades de uso do cartão devem aumentar ainda mais com outro projeto que está sendo tocado pela Visanet - a ampliação das funções dos terminais de POS, que passariam a ser equivalentes às dos terminais de correspondentes bancários. A partir do primeiro trimestre de 2006, os terminais da Visanet terão suas funções ampliadas progressivamente para o recebimento de impostos e contas de consumo, boletos bancário, realização de saques, aberturas de contas e empréstimos. A TecBan tem um projeto semelhante, e o Banco Popular do Brasil (BPB) está construindo sua rede de correspondentes a partir da tecnologia dos POS. A Redecard informou que também desenvolve projetos na área. Bittencourt vê a iniciativa como uma forma de multiplicar a rede de correspondentes bancários no país. Para se ter uma idéia do potencial da iniciativa, apenas a Visanet tem rede de 630 mil terminais POS, em 4,9 mil municípios. É mais de dez vezes o número de correspondentes bancários instalados, que, em dezembro de 2004, somavam 38 mil, segundo o dado mais recente do BC. Até pouco tempo atrás, os terminais de POS estavam concentrados em regiões de renda mais alta, mas essa realidade vem sendo mudada aos poucos. "Estamos chegando a municípios distantes, instalando pelo menos três pontos - um na farmácia, um posto de gasolina e um no supermercado", diz Ritzmann. A transformação dos terminais de POS em correspondentes bancários, avalia Bittencourt, poderá colaborar para a maior penetração desses equipamentos em regiões de renda mais baixa. O POS representa um custo relativamente alto para estabelecimentos comerciais com baixo movimento. "O sistema de correspondentes bancários permitirá que os pequenos comerciantes obtenham receita com os terminais, que cobrirá os custos de sua manutenção", diz Bittencourt. Só o aluguel do equipamento custa cerca de R$ 80 mensais, mais percentual de 3,5% sobre as vendas com cartão de crédito e 1,75% nas vendas com débito. Dentro do pacote de novidades que a Visanet vai colocar em operação em 2006 está um serviço conhecido como compre saque. Os clientes poderão fazer saques de pequenas quantias nos estabelecimentos que têm POS instalados.