Título: Previdência concentrada
Autor: Danilo Fariello
Fonte: Valor Econômico, 14/11/2005, EU &, p. D1
Capacidade de chegar facilmente aos clientes dá vantagem a seguradoras ligadas a grandes bancos, que respondem por 80% das captações neste semestre
Adistribuição dos investimentos em planos de previdência privada no segundo semestre traz à luz a forte concentração do setor, característica do mercado brasileiro. Mais de 80% da captação no período foi para apenas três seguradoras, ligadas a Bradesco, Itaú e Banco do Brasil. Uma realidade que se repetiu ao longo do ano. Especialistas do segmento são unânimes ao indicar que o principal fator de concentração é a existência de um canal de distribuição sólido e ramificado nesses grandes bancos. As seguradoras independentes têm sua venda ligada principalmente a corretores, cuja capacitação para venda desses produtos tende a apresentar resultados mais módicos e apenas em prazos mais longos. Dos R$ 2,67 bilhões aplicados em PGBL e VGBL nos primeiros quatro meses do segundo semestre (ver abaixo), segundo dados do site Fortuna, 43,11%, o equivalente a R$ 1,15 bilhão, tiveram como destino os produtos da Bradesco Vida e Previdência. Outros 23,91% foram investido na seguradora do Itaú e mais 13,19% aportaram na Brasilprev, seguradora ligada ao Banco do Brasil. Segundo Marco Antonio Rossi, da Bradesco Vida e Previdência, a preferência reflete a capilaridade do banco, presente em todas as regiões brasileiras, e o fato de o grupo ter sido o primeiro entre os grandes bancos a ingressar no mercado de previdência. "Além disso, por se tratar de investimentos de longo prazo, o participante leva muito em conta a solidez da seguradora, o que beneficia aquelas ligadas aos bancos." O diretor da Caixa Vida e Previdência, da Caixa Econômica Federal, Juvêncio Braga, diz que a concentração da venda de seguros na mão dos bancos é fenômeno mundial. Ele explica que as instituições financeiras já têm um contato direto com um volume grande de clientes, que facilita essa venda. Ele destaca que a vantagem das primeiras seguradoras no ranking decorre também do fato de serem as empresas mais antigas na distribuição de previdência. Segundo Rossi, do Bradesco, o fato de haver essa concentração não significa que exista pouca competitividade no setor. "As taxas das seguradoras ligadas a bancos são compatíveis com aquelas cobradas pelas concorrentes menores." Quem não tem o suporte de um banco, tem de se desdobrar para conseguir clientes. O grupo Icatu Hartford, por exemplo, que não mantém ligação societária com bancos no Brasil, corre por fora e firma parceria com distribuidoras de investimentos para crescer em previdência. Atualmente, a seguradora distribui planos por corretores, "family offices" e também pelas gestoras Pactual, GAP e Fator, que, além de distribuírem produtos, atuam na gestão de alguns planos de previdência da Icatu. Algumas seguradoras buscam também nichos específicos para tentar crescer e se diferenciar. Entre eles estão os setores de planos de previdência para jovens e o de funcionários e patrões de pequenas e médias empresas. Mas os grandes bancos também estão presentes nesses mercados. A Mapfre recentemente adquiriu a carteira de seguros da Nossa Caixa tendo como um dos focos principais a sua rede de distribuição para vender planos de previdência privada. O diretor-presidente da Mapfre Nossa Caixa, Marcos Eduardo Ferreira, explica que há dificuldades para se distribuir previdência apenas por corretores. "A remuneração deles não é tão atraente porque é diluída ao longo do tempo." Já vender um seguro de automóvel, para o corretor, é simples e a remuneração é mais polpuda. Além disso, o investimento no preparo dos corretores para vender previdência dá resultado na captação apenas num horizonte mais longo. Essa concentração dos recursos para previdência em poucas seguradoras é menor entre os clientes de alta renda, diz Marcelo D'Agosto, do Fortuna. Os participantes com mais recursos disponíveis para investir são alvos mais atraentes para os corretores de seguradoras e também para bancos private, que distribuem produtos de diversas entidades. Porém, nessa camada, os bancos também marcam sua presença forte, conquistando ainda a maior parte dos clientes interessados em aplicação para a aposentadoria. Para tentar aproveitar essa vantagem dada aos bancos, o BankBoston prepara para breve sua entrada no mercado. A Superintendência dos Seguros Privados (Susep) desenvolveu recentemente adaptações na regulamentação dos planos de previdência para elevar a competição do mercado, diz D'Agosto. Foram criadas regras que facilitam a migração de recursos entre diferentes seguradoras, a chamada portabilidade. Dessa forma, o participante pode mudar de instituição sem perder benefícios fiscais. O diretor da Susep João Marcelo Máximo diz que, dessa forma, a entidade busca garantir a livre competição entre os participantes do mercado. Mas, apesar do amparo legal, o investidor do plano de previdência ainda têm difícil acesso às informações sobre a possibilidade de migração e até sobre outras ofertas do mercado para saber qual a melhor alternativa na migração, diz D'Agosto. O presidente da Brasilprev, Eduardo Bom Angelo, acredita que exista pouco espaço para, num horizonte curto, haver grandes alterações nas posições entre as instituições que mais captam recursos.