Título: Recuperação de preços do boi volta a ganhar fôlego
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 16/11/2005, Agronegócios, p. B12
Crise Sanitária Retomada ainda depende de barreiras, mas deve perdurar
Interrompida pelo ressurgimento da febre aftosa no Mato Grosso do Sul, em 10 de outubro, a tendência de recuperação dos preços do boi voltou a se acelerar na semana passada e deverá perdurar mesmo com o fim da entressafra, em dezembro, quando o confinamento perderá espaço para a engorda no pasto. A retomada, conforme analistas, está ligada aos "ciclos longos da cadeia", melhor traduzidos como a velha relação entre preço e oferta. Preços em alta motivam aportes em rebanho e retenção de matrizes para ampliação da produção; em queda, levam o pecuarista a abater fêmeas (mais baratas em razão da qualidade da carne), reduzindo o índice de nascimento de bezerros e, consequentemente, a oferta. Os ciclos longos duram, em média, quatro anos, tendo em vista a taxa média de abates no Brasil (25% do rebanho por ano) e o tempo de criação. José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, observa que a redução da oferta de animais para abate e o aumento de preços já eram notados desde o fim de setembro, mas o surgimento dos focos de febre aftosa no Mato Grosso do Sul freou a alta. "Ainda assim, os preços tendem a se sustentar porque há pouca oferta de gado para abate", diz. Ferraz observa que as cotações podem registrar queda com a entrada da safra em algumas praças, mas que estes serão recuos transitórios. Ele informa que houve grande descarte de fêmeas nos últimos anos, e o abate de bezerros tem superado o número de cabeças produzidas por ano, gerando déficits de oferta. Ele diz, ainda, que há uma tendência de retenção de animais para reprodução, o que ajudará a sustentar preços. "Estamos entrando em um novo ciclo de recuperação". Segundo Ferraz, os preços da arroba do boi, hoje em R$ 53 no Mato Grosso do Sul e R$ 60 em São Paulo, podem chegar a R$ 55 e R$ 70, respectivamente, nas próximas semanas. Mesmo fatores ligados aos "ciclos curtos da cadeia" (safra e entressafra) corroboram a tendência de recuperação de preços. Isso porque, segundo Fabiano Tito Rosa, analista da Scot Consultoria, chuvas irregulares atrasaram a recuperação de pastagens em algumas regiões. Nos Estados de Mato Grosso e Tocantins, por exemplo, as chuvas de outubro e do início de novembro beneficiaram as pastagens e a expectativa é iniciar a engorda a pasto já a partir deste mês. Já em São Paulo e no Pará, que tiveram chuvas irregulares, a substituição do confinamento pela pastagem só deve começar em janeiro. "O baixo número de animais prontos para abate e matrizes favorece as perspectivas para um novo ciclo de alta em 2006", diz Rosa. Sérgio de Zen, pesquisador do Cepea/USP, estima que um maior número de animais no pasto deve ser notado entre dezembro e janeiro. Mas ele observa que a alta de preços depende do fim do embargo imposto por 49 países à carne brasileira e à reabertura das fronteiras de alguns Estados ao Mato Grosso do Sul e a São Paulo. Mário Renck Real, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram), ressalva, contudo, que as vendas de suplementos para gado estão paradas desde outubro, por conta da aftosa. Em Estados como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, a queda nas vendas chegou a 50%. O setor, que mantinha crescimento de 5% em 2005, agora estima queda de 8% a 10% nas vendas totais de sal mineral, para 1,7 milhão de toneladas e receita de R$ 1,2 bilhão. Antenor Nogueira, reeleito presidente do Fórum de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), diz que o quadro se reverterá rapidamente com o afastamento das suspeitas de aftosa no Paraná. Segundo a Secex, a média diária de exportações do complexo carnes caiu 9,7% na primeira quinzena do mês comparado à média de novembro, para US$ 32,149 milhões FOB . Antônio Camardelli, diretor-executivo da Abiec (reúne os exportadores), diz que as perdas em novembro devem superar às de outubro, quando o setor deixou de exportar US$ 66 milhões. Mas ele acredita em plena recuperação em 2006, após o controle dos focos no Mato Grosso do Sul. "O país responde por 25% do comércio mundial e ninguém pode suprir essa oferta". Também preocupa o setor a greve dos fiscais agropecuários, que já dura nove dias. Em evento ontem em Florianópolis, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, disse que os prejuízos causados pela greve serão limitados porque 30% dos fiscais estão trabalhando, mas não deixou de considerar a possibilidade de contratar uma cooperativa de veterinários para eventuais emergências. (Colaborou Vanessa Jurgenfeld, de Florianópolis)