Título: Para empresários argentinos, aproximação é positiva
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 17/11/2005, Brasil, p. A3

Ainda não existe uma visão clara do setor privado argentino sobre o impacto prático do ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul, mas os benefícios econômicos que vem trazendo ao país a política de boa vizinhança do presidente Hugo Chávez fazem com que a aproximação seja encarada positivamente. A Venezuela tem sido um provedor importante de combustível para a Argentina, e os suprimentos enviados por Chávez ajudaram o país a amenizar os problemas com a escassez do gás usado para alimentar termelétricas no inverno. Os dois países também estão se aproximando politicamente. O presidente argentino, Néstor Kirchner deve viajar no fim da semana à Venezuela para discutir a relação comercial e analisar o resultado da Cúpula de Mar del Plata. No âmbito comercial, as vendas de combustível venezuelano à Argentina são compensadas pelo incremento nas compras de produtos argentinos, e o intercâmbio está em expansão. Em 2003, a Venezuela absorvia 0,5% das exportações totais argentinas, mas no ano seguinte o peso relativo do país deu um salto. Em 2004 as exportações atingiram US$ 431 milhões, ou 1,5% do total. Neste ano, a expectativa da Câmara de Comércio Argentino-Venezuelana é atingir US$ 500 milhões. "De todo universo tarifário, a Argentina exporta 80%, e quase metade das exportações é de produtos com valor agregado", disse Jorge Rastrelli, diretor da entidade, sobre as vendas à Venezuela. Ele acredita que, com reduções tarifárias, o incremento pode se potencializar. Um exemplo seria o setor de vinhos, onde a Argentina poderia competir com produtos chilenos, que ingressam na Venezuela sem pagar imposto. Rastrelli avalia que o incremento do comércio com a Argentina tem a ver com uma decisão política do governo Chávez, que atua para substituir fornecedores do hemisfério norte e aumentar as compras em alguns países da América do Sul. O crescimento não teria relação com o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Comunidade Andina, e um indício disso é que o comércio entre a Venezuela e os dois países menores do bloco, Uruguai e Paraguai, está em declínio. De acordo com dados da consultoria Abeceb.com, até julho de 2005 as exportações de Uruguai e Paraguai à Venezuela caíram, respectivamente, 33,6% e 96,6% em relação a igual período de 2004. Apesar das boas perspectivas, o panorama para o empresariado ainda é pouco claro. "As relações econômicas estão se intensificando e sabemos da importância para o nosso suprimento energético", diz Débora Giorgi, economista da União Industrial Argentina (UIA). Ela afirmou que a entidade ainda não tem posição sobre o assunto por causa da indefinição dos termos em que se dará o ingresso venezuelano ao Mercosul. Na avaliação do ex-secretário de Indústria Dante Sica, "os prazos para a incorporação da Venezuela ao Mercosul se aceleraram a partir da Cúpula de Mar del Plata, e agora o setor privado terá de verificar a viabilidade de melhorar o acesso ao mercado venezuelano".