Título: Greve dos fiscais pode paralisar abates em SC
Autor: Vanessa Jurgenfeld
Fonte: Valor Econômico, 17/11/2005, Agronegócios, p. B11

Carnes Indústrias calculam perdas de US$ 100 milhões por semana

A maior parte das empresas do setor de carnes que operam em Santa Catarina vislumbra paralisação total dos abates na sexta-feira caso perdure a greve dos fiscais federais agropecuários, iniciada no último dia 7. O Sindicarnes-SC, que representa as companhias, informou ontem por meio de nota oficial que a "capacidade de estocagem chegou ao limite e nos próximos dois dias a maior parte das indústrias frigoríficas suspenderá totalmente a produção". Há comentários no mercado de casos graves de empresas que não teriam mais espaço de estocagem nas suas instalações. A lista inclui Sadia, Seara (controlada pela Cargill) e Coopercentral Aurora. No comunicado, o sindicato informou ainda que "medidas emergenciais para salvaguardar o parque agroindustrial começam, inevitavelmente, a entrar em pauta e imperiosamente incluem a paralisação das atividades, férias coletivas e até a dispensa de pessoal". O presidente da Aurora, José Zeferino Pedrozo, diz que a situação está bastante complicada. Em Joaçaba, a unidade da cooperativa não tinha mais condições de abate na semana passada e as operações tiveram que ser remanejadas. A Aurora passou a usar para o abate a planta arrendada da Chapecó Alimentos, antes só dedicada à industrialização. Em São Gabriel (MS), onde o grupo tem uma unidade, o abate parou durante toda a semana passada. Ontem, contudo, as operações estavam menos tumultuadas e os abates foram retomados, ainda que com capacidade limitada de estocagem. "Achamos a greve legítima. Mas por outro lado, são as empresas que estão pagando essa conta", disse Zeferino. A Faesc, federação agrícola de Santa Catarina, também se manifestou ontem em comunicado. Informou que o mercado doméstico de animais vivos para abate está refém da greve. "Os produtores rurais enfrentam um ano de sucessivas crises (...). A greve dos fiscais torna-se um elemento de agravamento desse quadro, tornando insustentável a atividade pecuária". Na noite de terça-feira, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, atendeu em Florianópolis os industriais das maiores empresas de carnes do país, como Sadia, Seara e Perdigão. Por cerca de uma hora, após participar da abertura de um congresso sobre cooperativismo, o ministrou ouviu as queixas. O Sindicarnes-SC calculou prejuízos de cerca de US$ 100 milhões por semana por conta da falta de certificação das cargas para exportação. As indústrias informaram que vão perder clientes em virtude dos atrasos. Nesse contexto, o tom do encontro com Roberto Rodrigues foi de desabafo, segundo informações de alguns participantes. Além das reclamações das indústrias, o próprio ministro também teria se queixado de não ter em suas mãos poder de decisão sobre a questão dos fiscais. Houve propostas de Rodrigues como a delegação das funções dos fiscais para os agentes auxiliares que não entraram em greve - medida que esteve em vigor já ontem em Santa Catarina - e a contratação de veterinários pelo Ministério da Agricultura em regime de urgência na sexta-feira caso a greve não acabe. Em último caso, o ministério poderia delegar a responsabilidade pela certificação ao Estado. As empresas têm evitado conversar com a imprensa. Estão em situação delicada para se posicionar sobre a greve, uma vez que os fiscais federais estão diariamente nas indústrias quase como funcionários e qualquer posicionamento - a favor ou contra - poderia gerar celeuma. No caso de declarações contrárias, as indústrias temem retaliação, já que os fiscais poderiam aumentar o rigor na certificação de carnes. No caso de posição favorável, elas temem que o mercado internacional não compreenda o posicionamento e que haja grandes efeitos econômicos como uma enxurrada de renegociação de preços em razão de eventuais não cumprimentos de prazos por parte de exportadores. Em Santa Catarina, os produtores integrados às indústrias informaram que ainda não estão sentindo redução de compras de suínos, mas o alerta das empresas foi dado e já se fala em uma nova escala de entrega de produção sugerindo possíveis adiamentos, conforme informou o presidente da Copérdia, Neivor Canton. Cooperativa sediada em Concórdia, a Copérdia tem atualmente 903 produtores de suínos associados.